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quarta-feira, 8 de abril de 2026

CRÔNICA | A vulnerabilidade digital da terceira idade

Chamaram de avanço. De fato, é. A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital nasceu da urgência de proteger quem ainda está aprendendo a existir no mundo, agora também nas telas. Crianças precisam de cuidado, orientação, limites. Precisam de adultos por perto, inclusive no invisível das redes.

Mas, enquanto olhamos para os pequenos deslizando os dedos sobre telas coloridas, há outros dedos, mais lentos, mais hesitantes, tentando acompanhar um mundo que corre rápido demais. São mãos que já trabalharam décadas, que já escreveram cartas, assinaram papéis, apertaram outras mãos. Hoje, essas mesmas mãos recebem mensagens com links suspeitos, ligações urgentes, promessas de amor improvável.

O Brasil envelhece e, com ele, cresce a exposição de quem tem mais de 60 anos a uma nova forma de violência: a digital. Não é o assalto na esquina, não é o empurrão no ônibus. É algo mais silencioso: uma conversa gentil que vira golpe; um “bom dia” que termina em prejuízo; um “eu te amo” que custa caro demais; e por aí vai.

O Estatuto da Pessoa Idosa já nos ensinava, muito antes da internet dominar o cotidiano, que envelhecer é um direito (com dignidade, respeito e proteção). Porém, talvez, ainda não tenhamos entendido que essa proteção também precisa de Wi-Fi, precisa de informação acessível, de educação digital, de políticas públicas que enxerguem o idoso não como alguém “fora do sistema”, mas como alguém vulnerável dentro dele.

Enquanto ensinamos uma criança a não falar com estranhos na internet, quem ensina o idoso a desconfiar de quem fala bonito demais? Enquanto criamos mecanismos para proteger dados de jovens, quem protege a aposentadoria de quem confia?

A verdade é que o cuidado não pode ter idade limite. Não pode parar nos 18 anos. A vulnerabilidade muda de forma ao longo da vida, mas não desaparece. Às vezes, ela só troca de nome: deixa de ser “inocência” e passa a ser “confiança”.

É necessário ampliar nosso olhar e entender que proteger crianças no mundo digital é essencial, mas proteger idosos é urgente. Porque, no fim das contas, todos nós estamos atravessando o mesmo caminho. Só estamos em pontos diferentes dele. E, um dia, inevitavelmente, seremos nós do outro lado da tela.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CRÔNICA | Ignorância é uma bênção?

Outro dia, entre uma aula e outra, uma aluna lançou uma fala que me deixou reflexivo: “Ignorância é uma bênção hoje em dia”. Disse isso com naturalidade, mas havia ali um peso que não se dissipava facilmente.

Fiquei a pensar no mundo que nos cerca, onde guerras são transmitidas quase em tempo real, discursos inflamados atravessam continentes, conflitos parecem não ter começo claro nem fim à vista, e por aí vai. Há dias em que abrir um portal de notícias é como mirar o caos. Não é exagero dizer que saber demais pode, sim, adoecer.

A informação, que um dia foi promessa de liberdade, virou um fardo também. Saber implica carregar. E carregar, às vezes, cansa. Quem acompanha tudo sente o peso das decisões políticas, das disputas de poder e das tragédias repetidas com pequenas variações. A mente não desliga; o coração não acompanha.

Nesse sentido, a ignorância parece oferecer um tipo estranho de conforto: quem não sabe não sofre da mesma forma; quem não acompanha dorme melhor. Há uma leveza em não se envolver com o que está distante, em não se responsabilizar emocionalmente por aquilo que foge ao nosso controle.

Mas, atenção, essa leveza tem um preço. Ignorar o mundo não o torna menos real. Os conflitos continuam, as decisões continuam sendo tomadas, as consequências continuam chegando, ainda que mais tarde e mais perto. A ignorância protege, mas também limita. Ela anestesia, mas também enfraquece.

Há uma diferença importante entre não saber e escolher como saber. Talvez, o problema não esteja na informação em si, porém na forma como nos relacionamos com ela. Consumir tudo o tempo todo, como se fosse possível dar conta do mundo inteiro, é receita certa para o esgotamento. Por outro lado, fechar os olhos completamente é abrir mão de compreender o próprio tempo.

Penso que, entre o excesso e a ausência, há um caminho mais difícil: o da consciência seletiva. Com ela, é possível informar-se, mas com critério; entender, mas sem se afogar; reconhecer os problemas do mundo sem permitir que eles destruam a capacidade de viver.

Ignorância pode até parecer uma bênção em dias mais pesados. No entanto, quiçá, não seja exatamente uma bênção, e sim um alívio temporário. E como alívio fácil, ela pode cobrar depois. No fim, não se trata de saber tudo ou nada saber. Trata-se de aprender a suportar o que se sabe e, principalmente, de decidir o que vale a pena carregar.

OPINION | Is ignorance a blessing?

The other day, between one class and another, a student made a remark that left me reflective: “Ignorance is a blessing nowadays.” She said it naturally, but there was a weight there that did not dissipate easily.

I found myself thinking about the world around us, where wars are broadcast almost in real time, heated speeches cross continents, conflicts seem to have neither a clear beginning nor an end in sight, and so on. There are days when opening a news portal feels like staring into chaos. It is no exaggeration to say that knowing too much can, indeed, make one ill.

Information, which was once a promise of freedom, has also become a burden. Knowing implies to carry. And carrying, at times, is exhausting. Those who follow everything feel the weight of political decisions, power disputes and tragedies repeated with slight variations. The mind does not switch off; the heart cannot keep up.

In this sense, ignorance seems to offer a strange kind of comfort: those who do not know do not suffer in the same way; those who do not follow sleep better. There is a lightness in not getting involved with what is distant, in not taking emotional responsibility for what lies beyond our control.

But, attention, this lightness comes at a price. Ignoring the world does not make it any less real. Conflicts continue, decisions continue to be made, consequences continue to arrive, even if later and closer. Ignorance protects, but it also limits. It numbs, but it also weakens.

There is an important difference between not knowing and choosing how to know. Perhaps the problem does not lie in information itself, but in the way we relate to it. Consuming everything all the time, as if it were possible to grasp the entire world, is a certain recipe for exhaustion. On the other hand, closing one’s eyes completely is to give up understanding one’s own time.

I think that, between excess and absence, there is a more difficult path: that one of selective awareness. With it, it is possible to stay informed, but with discernment; to understand, but without drowning; to recognize the world’s problems without allowing them to destroy the capacity to live.

Ignorance may even seem like a blessing on heavier days. However, perhaps it is not exactly a blessing, but rather a temporary relief. And like an easy relief, it may charge its price later. In the end, it is not about knowing everything or knowing nothing. It is about learning to bear what one knows and, above all, deciding what is worth carrying.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

CRÔNICA | Juventude como obrigação moral

Há tempo, eu deveria ter escrito esta crônica, mas, como quase sempre, falta tempo para as coisas boas da vida. No entanto, agora em minhas pseudoférias (um dia, conto o porquê disso), acabei revendo o filme "A substância", com Demi Moore. Então, nasceu o texto.

Há um momento no filme em que fica claro que o terror não está no laboratório, nem na seringa, nem no espelho. O horror verdadeiro é social. É o contrato silencioso que assinamos sem ler, a saber: envelhecer, sim, mas discretamente. Preferencialmente, sem rugas, sem flacidez, sem sinais de que o tempo inconveniente passou por nós.

Demi Moore, a meu ver, não interpreta apenas uma personagem. Ela encarna um arquétipo contemporâneo: o corpo que vence enquanto obedece. Jovem, produtivo, desejável. Quando deixa de cumprir tais funções, passa a ser um problema a ser corrigido, otimizado e até substituído. Isso não é ficção científica.

Vivemos a era da juventude compulsória. Não basta ser competente, experiente ou inteligente. É preciso parecer tudo isso sem jamais parecer cansado. O cansaço envelhece. A maturidade pesa. A serenidade não viraliza na internet. O algoritmo prefere a pele esticada, o sorriso treinado e a energia artificial de quem ainda finge que acabou de começar seja lá o que for.

O envelhecimento, que já foi sinal de autoridade, virou falha de caráter. Rugas são lidas como descuido. Cabelos brancos, como desistência. O corpo maduro não inspira respeito, inspira pena. Ou pior: invisibilidade.

"A substância" expõe essa lógica com crueldade. A promessa é simples e obscena: você pode continuar relevante, desde que aceite se fragmentar. Uma versão sua para o mundo e outra descartável, escondida, envelhecendo em silêncio. Parece absurdo no cinema. Fora dele, isso tem sido chamado de gestão da imagem pessoal. E há profissionais que ganham bem para isso.

O mais perverso é que não se trata apenas de aparência. A juventude exigida hoje é estética, emocional e moral. Esperam-se entusiasmo eterno, flexibilidade infinita e adaptação sem luto. Envelhecer implica dizer “não”, estabelecer limites, recusar certas humilhações. Isso não combina com o mercado.

No fundo, o filme nos faz perguntas incômodas: até que ponto estamos dispostos a nos mutilar simbolicamente para continuar desejáveis? Quantas versões de nós mesmos já sacrificamos em nome de aceitação, curtidas, contratos, convites que só chegam enquanto aparentamos frescor?

Entretanto, o corpo envelhece. Isso é biologia. O problema é a sociedade que envelhece mal, apavorada com o espelho, incapaz de lidar com o tempo sem tentar burlá-lo. Se pensarmos bem, "A substância" não fala sobre juventude, fala sobre medo. E ele, ao contrário das rugas, não se disfarça com maquiagem.

E por falar em medo, eu é que tenho medo de perguntar aqui: você usariam a substância do filme? Não mintam! Podem me responder de forma privada.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

CRÔNICA | Fim do ano, ou fim do mundo?

A cada dezembro, acontece um fenômeno curioso, quase antropológico: as pessoas não encerram o ano, elas entram em colapso. O calendário avança um número e, de repente, a humanidade passa a se comportar como se estivesse evacuando o planeta.

Há pressa em tudo: no trânsito, nos mercados, nas farmácias, nos caixas eletrônicos e, principalmente, nas emoções. Todos parecem atrasados para algum compromisso invisível, como se o dia 31, à meia-noite, fosse acompanhado por uma sirene e um fiscal existencial, cobrando pendências da alma.

Os supermercados viram arenas. Carrinhos disputam território. Pessoas brigam por uvas passas. O frango natalino, coitado, é tratado como entidade sagrada: se acabar, acaba o ano junto.

Nas ruas, motoristas dirigem como se o asfalto fosse desaparecer em 48 horas. Não é pressa, é desespero. Setas são ignoradas, gentileza entra em recesso coletivo. Ninguém quer chegar rápido; quer fugir.

Na área afetiva, o surto é ainda mais sofisticado. Surge a urgência de rever pessoas que passaram o ano inteiro sendo ignoradas, enviar mensagens genéricas recheadas de votos grandiosos e promessas vagas de “ano novo, vida nova”. A esperança é terceirizada para o calendário, como se janeiro tivesse poderes terapêuticos (ou mágicos).

Há, também, o pânico das listas: metas não cumpridas, projetos abandonados, corpos não esculpidos, contas não pagas, livros não lidos, etc. Dezembro vira um tribunal, onde todos se condenam por não terem sido versões irreais de si mesmos. Há julgamento e culpa (muita).

No fundo, essa afobação não é sobre festas, compras ou retrospectivas: é medo. Medo de que o tempo esteja passando rápido demais e alguém esteja percebendo. Medo de encarar que a vida não se organiza sozinha, só porque o calendário muda. Medo de admitir que o ano acaba, sim, mas os problemas, hábitos e escolhas atravessam a fronteira sem pedir autorização.

Talvez, fosse mais honesto tratar o fim do ano como ele realmente é: apenas o fim de um ano, sem histeria, sem correria, sem encenação coletiva de que algo sobrenatural está prestes a acontecer. Aqui vai um "spoiler": não está.

O mundo não acaba no dia 31. Sua ansiedade também não. Ainda assim, caro leitor, desejo-lhe: boas festas...

terça-feira, 18 de novembro de 2025

CRÔNICA | Costurados de nós mesmos

Guillermo del Toro, com aquela devoção enorme e quase religiosa por monstros, fez em “Frankenstein” algo que Mary Shelley já sussurrava e que nós fingimos não ouvir: a criatura não é um erro, é um espelho daqueles que devolvem a verdade sem filtro de beleza.

O monstro nasce de pedaços. Mas sejamos francos: quem não? Depois de ter visto o filme, o qual está disponível no catálogo da Netflix, passei a refletir sobre ele como um todo, não apenas como uma releitura do livro e de outras películas passadas.

Também somos um mosaico malcomportado de tudo o que tocou nossa vida: as decisões que tomamos por impulso, os medos herdados, as cicatrizes de quem nos amou mal, as lembranças de quem nos amou corretamente, os erros familiares, etc. Nada em nós é puro ou original. Somos editados, costurados com linhas de afetos e grampeados com traumas que superamos (ou fingimos ter superado).

A diferença é que o monstro de Del Toro nada tenta disfarçar. Ele exibe a costura. Nós, não, passamos a vida inteira nos debatendo para esconder pontos soltos, como se vulnerabilidade fosse defeito de fabricação e demonstrasse fraqueza. Ironicamente, é isso que nos aproxima ainda mais da criatura: vivemos com a sensação de que estamos sempre fora do lugar, sempre tentando provar que merecemos existir, sempre acreditando que, se alguém olhar perto demais, verá a colcha de retalhos emocional que somos.

No fundo, a verdade incômoda é simples: somos todos um pouco o monstro de Frankenstein, carregando dentro de nós pedaços de gente que passou, de dores que ficaram, de memórias que insistem em retornar. E se há algo bonito nisso, é que, apesar da colagem imperfeita, seguimos caminhando com nossas cicatrizes, nossos retalhos e uma estranha persistente em pulsar, mesmo quando o mundo diz que não deveríamos fazer isso.

Será que Del Toro sempre soube que o monstro só parece assustador para quem ainda não aprendeu a se enxergar? E nós sabemos? Nossos pedaços souberam? Vamos pensando...

sábado, 28 de junho de 2025

Reflexões sobre o lançamento do "Enquanto isso 2"

Na terça (24), aconteceu o lançamento do volume 2 da obra "Enquanto isso, em Santo Antônio...", mas só hoje consegui ter um tempo para escrever sobre isso. Fiz parte da comissão organizadora do livro, então, sinto-me à vontade para refletir acerca.

Investimento
Que coisa tão boa ver o governo federal investindo em cultura! A Política Nacional Aldir Blanc tem possibilitado que muitas manifestações culturais saiam do campo das ideias e tornem-se realidade. No ano passado, fiz parte da comissão que organizou o volume 1 da citada obra, a qual foi feita com recursos da Lei Paulo Gustavo. Não imaginávamos que surgiria o volume 2. Ou seja, foram dois livros feitos com grana da União dada a municípios que se cadastraram corretamente com bons planos de ação. Torço para que isso continue ocorrendo, a fim de que mais literatura seja feita. Parabéns aos governos federal e municipal!

Inclusão
Outro fato muito bom foi ver pessoas que, dificilmente, teriam alguma publicação oficial estarem na obra lançada. No volume 1, contamos com textos de alunos do Ensino Médio de escolas públicas locais. No 2, foi a vez do pessoal que faz parte do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos. Achei o máximo ver adolescentes, na hora do coquetel, sentados juntos, trocando seus exemplares, colhendo autógrafos uns dos outros. Curti, também, saber que, na obra, há poemas de duas senhoras que não sabem ler e escrever. Mesmo assim, ditando seus versos, tornaram-se autoras. Houve, ainda, o relato de uma senhora que disse mais ou menos assim: "Tenho setenta e poucos e anos e nunca me imaginei dando um autógrafo". Gratificante, não?

Um tempo
Dois dias após o lançamento, uma senhora integrante do Grêmio Literário Patrulhense colocou no grupo de WhatsApp da entidade que o título de seu poema saiu errado, uma letrinha foi trocada. Quem me conhece sabe o quanto sou perfeccionista. Sabe, também, que, mesmo recebendo cem elogios, se eu receber uma crítica negativa, esta ficará sendo repetidamente lembrada por mim, como se as coisas boas fossem anuladas e só a ruim tivesse vida. Caso de terapia, eu sei. Porém isso me fez refletir que estou no GLP desde 2013 e, de lá até aqui, já participei da organização de muitas obras. Só quem faz isso sabe o quão estressante é lidar com a expectativa e com a opinião de muitas pessoas. Por isso, é chegada a hora de dar um tempo em trabalhos voluntários. É hora de outras cabeças (mais velhas ou mais novas do que a minha) assumirem a responsabilidade de organizar publicações. Não pretendo mais, portanto, fazer isso em minha cidade.

Postas as três reflexões, preciso mencionar que o trabalho voluntário dos outros membros da comissão foi excelente! Obrigado, Monique Rodrigues, Rosalva Rocha, Mário Antônio Barcelos e Viviana Ungaretti, pela parceria!

Lembro a todos que a obra pode ser baixada gratuitamente em pdf e ouvida no YouTube. Basta clicar aqui para ter acesso aos dois conteúdos.

E agora, alguns registros fotográficos do lançamento. É isso.






sábado, 26 de abril de 2025

Estudo sobre o Conselho Municipal de Cultura

Em 2024, fiz uma pesquisa sobre a efetividade do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura de Santo Antônio da Patrulha/RS. Foi o trabalho de conclusão da pós-graduação Gestão Pública Municipal (FURG). Recentemente, houve a publicação deste artigo, que compartilho com vocês. Para lê-lo, clique aqui.




segunda-feira, 6 de maio de 2024

CRÔNICA | “Empatia”, a palavra do momento no Rio Grande do Sul

Nos últimos dias, eu e uma tia estivemos em Parobé/RS, uma das cidades atingidas pelas graves enchentes, para prestar algum tipo de ajuda. Foi muito triste ver as pessoas perderem tudo ou quase tudo. Logicamente, perder a vida é o pior, mas a sensação de chegar a um local e ver, nas frentes das casas, o que antes estava dentro delas é horrível. Pertences que, muitas vezes, foram adquiridos com trabalho e suor descartados por não prestarem mais. Foram cenas que, realmente, me impactaram.

Em dado momento, vieram uma retroescavadeira e um caminhão da Prefeitura, a fim de recolher os agora entulhos. Que coisa tão agoniante ver o que sobrou de sofás, camas, eletrodomésticos, etc. irem para dentro de uma caçamba, para serem descartados em seguida. Fiquei pensando que era uma parte da vida daquelas pessoas indo embora. E uma parte cara.

Mesmo tendo ocorrido extremos climáticos em 2023, o governo estadual não se preparou para um novo evento assim. “Ah, Márnei, mas não havia como prever que seria tão grave”. Discordo um pouco disso, pois dar porcentagem mínima para a Defesa Civil no orçamento é uma forma de previsão, não? Cientistas, há anos, informam que eventos assim serão cada vez mais comuns, e nosso estado – no sul do país – terá, sim, chuvas intensas com muita frequência. Não será de vez em quando.

Seja como for, o que quero destacar neste texto é a empatia das pessoas. “Empatia”, inclusive, é a palavra para o Rio Grande do Sul no momento. Colocar-se no lugar do outro, entender a dor dele, imaginar como seria se eu perdesse tanto quanto ele. Uma pena que essa empatia surge apenas nas desgraças. Se ela fosse algo constante, teríamos sucesso como sociedade, não agrediríamos tanto Gaia (a Terra) e não estaríamos sofrendo sua vingança agora.

Empatia, gaúchos e brasileiros! Tenham-na! Ajudem quem precisa! Sempre é possível fazer algo.

Restos do que, antes, compunha as casas...

... sendo recolhidos como entulhos agora...

... indo embora das vidas das pessoas.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

CRÔNICA | Desconhecimento juvenil


Recentemente, faltou luz em toda a cidade. Mais um "presente" diário da Equatorial a nós. Conversa vai, conversa vem, uma estagiária de 17 anos, preocupada em como aqueceria seu almoço, questionou uma colega: "Como vocês esquentavam comida antes do micro-ondas?" Apavorada, a colega respondeu a ela: "Ué? Com o fogão". Para fechar com chave de ouro, a estagiária disse: "É que sou nova, tenho apenas 17 anos".

Em outro setor, outra colega solicitou a seu estagiário que fizesse algumas ligações telefônicas, para dar recados a usuárias do serviço. Colocou o telefone fixo na frente dele e saiu. Quando voltou, o guri estava empurrando os números para cima, como se estivesse mexendo numa tela de celular. A colega, então, ensinou a ele como funcionava um telefone "tradicional", o fixo.

Ambas as situações causam apavoramento, a meu ver. Primeiro, porque as coisas evoluem com tanta rapidez, que não conseguimos acompanhá-las. Segundo, porque o desconhecimento juvenil parece maior, quando se trata de coisas que não são do dia a dia deles, os adolescentes. "Ah, Márnei, mas eles não têm obrigação de saber tudo", algum vai me dizer. No entanto, com tanta tecnologia, com tanta internet, com tanta globalização, não é possível pesquisar tais dúvidas para enfrentar um pequeno problema?

Sei lá. Ou eu estou velho demais, ou as gerações estão modernas demais. Quem sabe?

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

OPINIÃO | A vingança de Gaia

Rio de Janeiro com sensação térmica de quase 60 graus. Rio Grande do Sul com um dilúvio de meses. Tremores constantes na Islândia. Três exemplos apenas. Quem poderia imaginar que, após séculos de abuso por parte da humanidade, a Terra estaria fazendo isso? Sim, houve deboche na pergunta.

A mudança climática é anunciada por cientistas há muito tempo. O consumo desenfreado, a extração de recursos, o desmatamento e mais um monte de ações, certamente, trariam consequências ao nosso lar. Até que demorou a meu ver.

James Lovelock, criador da Teoria de Gaia e autor de "A vingança de Gaia", já havia alertado sobre isso. Os escritos dele foram muito importantes para mim, quando lá em 2015, fiz a pós-graduação Educação Ambiental (FURG). Lembro que, até o último momento, fui criticado pelos professores, pois não poderia fazer um trabalho de conclusão baseado apenas numa teoria. "Virou e mexeu", no fim das contas, mudaram até o título do meu artigo. Ocorre que a Teoria de Gaia saiu da teoria e entrou na prática. E a vingança dita por Lovelock parece ter começado também. A propósito: a palavra "Gaia" refere-se ao planeta Terra.

Quando eu ainda estava atuando como docente na educação básica, abordei o tema com os alunos nos tempos do Ensino Médio Politécnico gaúcho. Lembram-se dele? Ele exigia projetos, interdisciplinaridade e mais um tanto de coisas boas na educação. Pena que já se foi.

Seja como for, escrevi uma coisinha e outra sobre a Hipótese de Gaia. É assunto importante, urgente e necessário a todos. O link de um dos textos está a seguir.

Educação Ambiental a partir de uma experiência de formação continuada: clique aqui.

sexta-feira, 24 de março de 2023

OPINIÃO | This is us: um drama para (quase) chamar de nosso

Nas últimas semanas, eu até que tentei economizar, porém não consegui: devorei todas as seis temporadas da série americana This is us (disponível no Star Plus). Embora ela tenha iniciado em 2016, só tive contato com ela agora em 2023, depois que já tinha terminado.

Gente, posso dizer com toda a convicção: foi a melhor série que já vi na vida. Dificilmente, serei capaz de falar isso sobre uma outra. Mas por quê? Vou tentar explicar.

This is us é um drama que conta a estória da família Pearson. Do nada, Jack e Rebecca se veem pais de trigêmeos, sendo que um falece logo após o parto, sendo substituído, com o consenso deles, por um bebê negro que fora abandonado no mesmo dia. Isso ocorre no primeiro episódio, ou seja, já no início, a série prende o espectador.

Daí por diante, acompanhamos o desenvolver de todos os personagens, isto é, dos pais, dos três filhos, seus relacionamentos, suas frustrações, o que gostariam de ser na vida e não conseguiram, ou, então, o que não esperavam ser, a relação por vezes conturbada com cônjuges, afetos, tudo num vem-e-vai fascinante, conectando presente e passado a cada novo episódio.

Não há como não se identificar com as histórias. E o choro é livre nos capítulos. Quantos de nós, já com certa idade, passamos a repensar nossas vidas? O que temos hoje é o que planejamos no passado? Algum fato, no meio do trajeto, ocorreu e mudou tudo do nada? Qual o momento certo para transformar algo? Sobre essas e outras questões, somos capazes de refletir durante a série. É como se fosse uma sessão de terapia/análise a cada episódio.

Não sei quanto a vocês, mas eu, que já estou com ... anos de idade, comecei a remoer/relembrar/revisitar coisas do passado, buscando conexões com o presente, tentando programar um futuro. E não é bobice dizer que This is us me incentivou nesse sentido. Até terapia passei a fazer. Que coisa, né?

Fica a dica, então, a você que, por acaso, está à procura de alguma série inspiradora com conteúdo que, de fato, permeia a vida real. Uma pena que ela acabou, entretanto, a nossa vida continua, isto é, o drama dura, restando a nós dar um final (quiçá, feliz) a ele.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

OPINIÃO | A (in)utilidade da educação

Hoje (11/10/22), o Facebook me lembrou de um texto sobre educação que publiquei no Jornal do Comércio em outubro de 2018. Lendo-o novamente, reparei que pouca coisa mudou de lá para cá. Concordam?

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

OPINIÃO | Tudo deu errado, ou nada deu certo?

Tínhamos tantas expectativas para 2021, não é verdade?

Imaginamos que a pandemia de coronavírus já estivesse controlada, que o ciclo vacinal de mais pessoas estivesse completo, que as aulas pudessem voltar totalmente ao modo presencial, que fôssemos capazes de curtir eventos sem a preocupação de contaminação, que os preços de todas as coisas estivessem mais baixos, que não houvesse tantos escândalos na política e mais uma infinidade de desejos.

Já é dezembro, e podemos perceber que nem tudo saiu como pensamos que seria. Aliás, muitas coisas deram errado. Uma pena.

Recentemente, num perfil de humor do Instagram, vi a seguinte colocação: “Minha vida é tudo ou nada. Ou tudo dá errado, ou nada dá certo”. Seria essa a cara de 2021? Uma repetição de 2020?

Seja como for, não podemos deixar a peteca cair. Por mais difícil que seja, necessitamos ter certo otimismo para acreditar em dias melhores. E isso aqui não é papo de “coach”, dizendo que tudo depende de você. Na verdade, é papo de quem tem enfrentado as adversidades assim como todo mundo. Se olharmos mais para as coisas boas que acontecem, por menores que sejam, isso já nos trará conforto.

O filósofo Arthur Schopenhauer disse: “Pensamos raras vezes no que temos, mas sempre no que nos falta”. Tal pensador tem fama de pessimista, mas acerta muito nessa frase. Que tal fazermos o mesmo?

Se as coisas não saíram como quisemos em 2021, vamos imaginar que tudo (ou algo) vai melhor em 2022. “Bora” curtir então?! Como diz uma amiga e ex-colega de trabalho, “avante sempre!

Bom fim de ano e excelente (assim espero) 2022 a todos!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

OPINIÃO | A pandemia melhorou o ser humano... Oi?

Poucos meses depois do início da pandemia, nós pensamos que ela serviria para melhorar o ser humano, a fim de que ele evoluísse como indivíduo que vive coletivamente. No entanto, um ano após, isso ocorreu? Vejamos:

"Eu sendo vacinado, está bom. O resto é o resto."

"Meu comércio ficando aberto, está bom. Os outros que lutem."

"Eu tendo como me manter, está bom. Os outros que se virem."

"Vou fazer festa. Se pegar COVID, sou jovem."

"Eles morreram não por culpa do coronavírus, mas porque tinham outros problemas ou eram velhos." 

As frases acima são familiares a você? Com adaptações, você já as ouviu? Já as disse?

Pois é. Talvez, a dita evolução ainda demore bastante...

sexta-feira, 1 de maio de 2020

OPINIÃO | Enfim, a valorização da EaD!


Veio a pandemia, e fomos obrigados a praticar o distanciamento social. Com isso, todas as áreas foram afetadas, mas, talvez, a que mais soube lidar com isso foi a educação. O ensino a distância tornou-se o único meio de dar continuidade às práticas escolares/acadêmicas.

Certamente, você já ouviu alguma posição contrária à educação a distância. Algo do tipo: “EaD não presta, quero aula com o professor na minha frente”. Muito preconceito existiu acerca de tal modalidade de ensino. Boa parte disso se deve ao fato de que as pessoas não são (ou não querem ser) autônomas em seus processos de aprendizagem. Depositam isso em outra pessoa (o professor), que tem a missão de, presencialmente, fazer com que aprendam algo. Finalmente, em 2020, vimos que não é bem assim.

Minha experiência com a EaD começou na UNISINOS, em minha graduação em Letras, em 2000 e “alguma coisa”. Havia o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem. Lembro que, quando isso surgiu, eu logo me matriculei nas disciplinas que seriam ofertadas a distância. Confesso que, de início, minha intenção era baixar o gasto com transporte: quanto mais disciplinas a distância, menos passagens para ir à universidade. Porém o fato é curti a modalidade. Para mim, é muito tranquilo estudar de casa, fazer meus horários, doutrinar-me para isso. Depois da graduação, fiz pós-graduações a distância e atuei como tutor em cursos também a distância. Ou seja, são anos atuando como aluno, tutor ou professor em EaD. Além disso, eu criei dois blogs (um para Inglês e outro para Literatura) para usar com meus alunos, quando eu ainda estava na educação estadual, em tempos em que as ferramentas do Google for Education não existiam.

Com base nessa vivência, penso que há a necessidade de as pessoas perceberem que a educação a distância não é tão a distância assim. Nos cursos dessa forma, há a presença de tutores a distância (normalmente, responsáveis pelos conteúdos) e tutores presenciais (que são os que, de fato, mantém contato, digamos, mais próximo com os alunos, os quais, portanto, não ficam desamparados).

Em 2020, o Brasil precisou usar a EaD de forma quase que massiva. Ela saiu dos bancos universitários e passou aos escolares, pois os professores precisaram oferecer conteúdos e práticas aos discentes, a fim de que a educação não parasse. Claro, ficou pesado para os docentes, pois eles viraram You Tubers, necessitaram aprender a usar certas tecnologias, para que suas aulas continuassem a ocorrer. Todavia isso é ruim? Evoluir nas ferramentas educacionais? Penso que não. É difícil adaptar-se a isso? Sim, é, mas é, também, necessário, pois a figura de um ser escrevendo num quadro, “empurrando” conhecimentos, não deve mais ser a ideal. Não estou dizendo que tal prática seja abolida, mas sim que seja complementada com outras mais, como é o caso das ferramentas da educação a distância.

O ano de 2020 mostrou-nos que a EaD veio para ficar. Mostrou que, se o sistema educacional não investir em tal modalidade, estaremos fadados a perpetuar um modelo de séculos atrás. Precisamos evoluir, precisamos educar melhor, precisamos não depender tanto de atividades presenciais. Que o momento atual sirva de aprendizado a todos, alunos e professores, e que o preconceito acerca da EaD seja superado.

quinta-feira, 7 de março de 2019

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

OPINIÃO | Não se trata de opção!


Em tempos de azul x rosa (mesmo que haja a desculpa de se tratar de uma figura de linguagem), quero escrever aos ignorantes. Mas atenção: antes de me xingar pelo uso dessa palavra, tenham em mente que ignorante é a pessoa que não teve acesso a algum conhecimento. Isso pode ocorrer porque ela não quis (se nega a isso), ou porque não teve a oportunidade. Eu, por exemplo, sou ignorante em mecânica de carros. E por aí vai.

Os parágrafos a seguir são fruto “do resumo do resumo” de dois trabalhos de conclusão meus (Educação em Direitos Humanos – FURG e Educação para a Diversidade – UFRGS, ou seja, provêm de pesquisa.

A ignorância sempre permeou nossa sociedade. Como civilização, já tivemos escravos, as mulheres já desempenharam papel de total submissão, pessoas com determinadas doenças foram mortas, só para citar alguns exemplos. Não seria diferente com relação às questões sexuais, em especial, a pessoas que se sentem atraídas pelo mesmo sexo.

A falta de conhecimento sobre a homossexualidade é grande. Na mídia, quando se fala do assunto, ou é de uma forma que visa à desqualificação do homossexual, por meio de piadas e chacotas, ou com informações imprecisas. Se falar de sexo incomoda, imagine isso tocante à homossexualidade. O tabu é forte.

Por muito tempo, a atração de pessoas pelo mesmo sexo foi considerada uma doença. O termo que se usava era “homossexualismo” (o sufixo “ismo” é usado para palavras associadas a doenças). Hoje, o correto é usar “homossexualidade”, ou seja, com o sufixo “dade” que, segundo o psicólogo João Batista Pedrosa (2006), significa ‘maneira de ser’.

Pedrosa (2006) informa que foi com o médico alemão Magnus Hirschfeld que se começou a deixar de lado a terminologia “homossexualismo”. Hirschfeld, na década de 1920, divulgou a ideia de que a homossexualidade não é uma doença, mas sim tem origem biológica.

Quase meio século depois, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM), deixando de considerá-la doença. Posição que foi acompanhada por centenas de organizações em todo o mundo.

Como se nota, a questão homossexual até doença já foi considerada. Graças à ciência e a movimentos sociais, isso não ocorre mais hoje. É uma preocupação a menos para gays, lésbicas e transexuais em nossa sociedade. Se bem que a ciência que desqualificou a homossexualidade como doença foi a mesma que, no passado, denominou-a como tal (homossexualismo). Então, é preciso prestar atenção ao que se faz necessário para modificar certas concepções sociais.

No entanto, mesmo sendo esclarecido pela ciência, muitas pessoas ainda referem-se ao tema como “opção sexual”. Pedrosa (2006) explica que não se trata de uma opção. Optar significa escolher em ser ou não ser gay. Assim como o heterossexual não escolhe em ser ou não ser heterossexual, o mesmo acontece com o homossexual. Sendo assim, o termo mais correto é “orientação sexual”, que pode ser explicada por fatores genéticos, ambientais e práticas culturais.

Imagine a pergunta: “Quando você optou por ser heterossexual?” Provavelmente, a pessoa vai dizer: “Sempre fui assim”. Pois é, não foi uma escolha.

Ficou mais claro? Espero que sim. Eu opto sempre pelo conhecimento científico. Recomendo tal conhecimento a todos (azuis ou rosas). Os estudos estão ao acesso de todos, basta serem dados uns cliques certos na internet, ou ser feita uma boa consulta bibliográfica.

sábado, 29 de dezembro de 2018

OPINIÃO | Clichê: não sei se bom ou ruim...

O título é clichê, eu sei, pois sempre temos coisas boas e ruins em nossa vida. No entanto, em 2018, para mim, isso ficou muito marcado, ou seja, foi um ano bem dividido nesse quesito.

Há alguns anos, costumo fazer um texto de retrospectiva. Não há como ser diferente. Acredito que vocês, em dezembro, também repensam tudo o que ocorreu nos meses anteriores, estou correto? É o famoso balanço: o que prestou, o que não deu certo, etc.

Com relação a trabalho, ele foi intenso. Foi meu segundo na Secretaria da Cultura, Turismo e Esportes de Santo Antônio da Patrulha, onde temos que fazer chover com pouca grana, sempre buscando investimentos de fora por meio de projetos. Estes foram feitos em 2017 e no começo de 2018, sendo que os frutos estão vindo agora, como é o caso da revitalização de seis pontos turísticos na cidade, o que totaliza R$ 1 milhão. No Polo Universitário Santo Antônio, as coisas foram intensas também, com a tutoria em filosofia e com a docência no curso “Aspectos filosóficos da diversidade”. Ainda houve as queridas e dedicadas alunas particulares de inglês, isto é, três turnos sempre.

Ao término de cada pós-graduação que faço, eu digo: "Esta foi a última. Não farei outra. Não quero mais me incomodar". Isso, mais uma vez, se revelou uma mentira, pois concluí, em junho, "Gestão escolar: orientação e supervisão". Não adianta: sempre serei um entusiasta da formação continuada, seja para mim, seja para outrem.

Em 2018, minha mãe descobriu que estava com câncer de mama. Então, foi uma luta grande com cirurgia e radioterapia. Com afinco e esperança, tudo está bem agora, permanecendo ela apenas com quimioterapia oral. Não adianta: quando o assunto é saúde, todos nos abalamos.

Neste ano, ficou bem claro para mim que, quando damos o dedo, as pessoas querem a mão. Recebendo a mão, querem o braço, e assim por diante. Até a metade do ano mais ou menos, preocupei-me muito com isso, querendo agradar a todos. Entretanto, não é possível. Ser realista e dizer “não” são ações necessárias. Nunca contentaremos todos, é fato. E, ao tentarmos fazer isso, só ganhamos estresse e menos horas de sono.

Também em 2018, tive o amargo conhecimento de que grandes amizades podem acabar por política, sim. Aquelas de anos, que pareciam ser para a vida toda. A campanha eleitoral foi devastadora, pois, por meio dela, pude perceber como pensavam muitas pessoas próximas a mim. Isso me frustrou bastante. Todos sabemos que grandes amizades têm laços mais fortes do que os familiares às vezes. Mas, assim como ocorre na família, esses elos podem ser rompidos, ficando os sentimentos de dúvida e mágoa. Realmente, é uma pena.

Porém conquistei novos amigos. Pessoas que eram somente conhecidas passaram a ser amigas agora. Gente que convivia comigo sem muita proximidade e gente que conheci do nada. As afinidades contam muito.

Consegui um tempo para mim, conforme tinha prometido no ano anterior, e pude viajar à Argentina e ao Chile. Conhecer culturas e lugares novos é uma das melhores coisas da vida. Desligar-se da rotina por alguns dias é sempre bom.

No texto de 2017, prometi dedicar-me mais à literatura, o que não ocorreu em 2018. Acabei publicando um conto e uma crônica na obra “Prosa na Varanda 4” e um poema na “Poesia na Praça” apenas. Todavia, a versão completa das “Rivais” está pronta. Portanto, faço nova promessa: ela será impressa em 2019.

Aliás, com relação a 2019, não quero fazer outras promessas. É preciso viver o momento. Assim como podemos prometer e não cumprir algo, podemos fazer algo totalmente novo e legal. Pensando bem, essa pode ser a palavra para 2019: momento. Assim sendo, desejo que os meus e os seus momentos sejam muito bem vividos nesse ano vindouro. Bola para frente!

domingo, 7 de outubro de 2018

OPINIÃO | A (in)utilidade do estudo

- Como assim? Um professor escrever um texto com um título desses?

Calma. Explicarei (ou tentarei explicar) o porquê disso...

Depois que me formei em Letras – Português/Inglês, fiz quatro especializações: Educação em Direitos Humanos; Educação para a Diversidade; Educação Ambiental; e Gestão Escolar: Orientação e Supervisão. Isso quer dizer que fiquei, mais ou menos, seis anos estudando depois da graduação. E para quê isso?

Pós-graduação em Direitos Humanos, quando as pessoas são cada vez menos respeitadas... Pós-graduação em Diversidade, quando as diferenças são cada vez mais condenadas... Pós-graduação em Educação Ambiental, quando a classe política não está nem aí para o meio ambiente... Gestão Escolar, quando a escola virou símbolo de sucateamento e decadência...

Sim, as eleições deste ano me fizeram refletir sobre as áreas de estudo para as quais dediquei anos de minha vida acadêmica. Foi como nadar contra a maré. Foi como achar estar sonhando e, na verdade, ter tido um pesadelo. Foi como sentir-se quase inútil construindo conhecimentos que, hoje, parecem não mais valer.

As manifestações de ódio, a intolerância e a polarização no país tomam proporções avassaladoras. Não seguir o fluxo torna você um contraventor. E, às vezes, seguir o fluxo torna você cúmplice.

São tempos difíceis. Tempos em que é árduo aconselhar alunos sobre a continuidade dos estudos, sobre cursos superiores, sobre profissões, sobre futuro... São tempos em que a luz no fim do túnel pode, de fato, ser um trem enorme que passará por cima de você.

Mas, no meio de toda essa turbulência, ainda é preciso crer numa palavra: esperança. Esperança de que o estudo valha para a transformação da sociedade, porém para uma transformação boa, sem retrocessos, sem cogitação de inutilidade, sob pena de frustração.

Esperança, sim, por favor!