Há tempo, eu deveria ter escrito esta crônica, mas, como quase sempre, falta tempo para as coisas boas da vida. No entanto, agora em minhas pseudoférias (um dia, conto o porquê disso), acabei revendo o filme "A substância", com Demi Moore. Então, nasceu o texto.
Há um momento no filme em que fica claro que o terror não está no laboratório, nem na seringa, nem no espelho. O horror verdadeiro é social. É o contrato silencioso que assinamos sem ler, a saber: envelhecer, sim, mas discretamente. Preferencialmente, sem rugas, sem flacidez, sem sinais de que o tempo inconveniente passou por nós.
Demi Moore, a meu ver, não interpreta apenas uma personagem. Ela encarna um arquétipo contemporâneo: o corpo que vence enquanto obedece. Jovem, produtivo, desejável. Quando deixa de cumprir tais funções, passa a ser um problema a ser corrigido, otimizado e até substituído. Isso não é ficção científica.
Vivemos a era da juventude compulsória. Não basta ser competente, experiente ou inteligente. É preciso parecer tudo isso sem jamais parecer cansado. O cansaço envelhece. A maturidade pesa. A serenidade não viraliza na internet. O algoritmo prefere a pele esticada, o sorriso treinado e a energia artificial de quem ainda finge que acabou de começar seja lá o que for.
O envelhecimento, que já foi sinal de autoridade, virou falha de caráter. Rugas são lidas como descuido. Cabelos brancos, como desistência. O corpo maduro não inspira respeito, inspira pena. Ou pior: invisibilidade.
"A substância" expõe essa lógica com crueldade. A promessa é simples e obscena: você pode continuar relevante, desde que aceite se fragmentar. Uma versão sua para o mundo e outra descartável, escondida, envelhecendo em silêncio. Parece absurdo no cinema. Fora dele, isso tem sido chamado de gestão da imagem pessoal. E há profissionais que ganham bem para isso.
O mais perverso é que não se trata apenas de aparência. A juventude exigida hoje é estética, emocional e moral. Esperam-se entusiasmo eterno, flexibilidade infinita e adaptação sem luto. Envelhecer implica dizer “não”, estabelecer limites, recusar certas humilhações. Isso não combina com o mercado.
No fundo, o filme nos faz perguntas incômodas: até que ponto estamos dispostos a nos mutilar simbolicamente para continuar desejáveis? Quantas versões de nós mesmos já sacrificamos em nome de aceitação, curtidas, contratos, convites que só chegam enquanto aparentamos frescor?
Entretanto, o corpo envelhece. Isso é biologia. O problema é a sociedade que envelhece mal, apavorada com o espelho, incapaz de lidar com o tempo sem tentar burlá-lo. Se pensarmos bem, "A substância" não fala sobre juventude, fala sobre medo. E ele, ao contrário das rugas, não se disfarça com maquiagem.
E por falar em medo, eu é que tenho medo de perguntar aqui: você usariam a substância do filme? Não mintam! Podem me responder de forma privada.
Não, eu não usaria. Venho tentando, de forma um tanto desordenada, manter a essência nestes
ResponderExcluirtempos dificeis de entender. Como adaptar-se sem luto algum? As vezes chego a pensar que a humanidade, como um todo, está doente.
Dos teus textos este é, para mim, um dos melhores. Reflexivo demais.
de entender. Afsptar-se