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terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA | É possível sermos nós os mutantes?

Recentemente, reassisti a todos os filmes dos X-Men e, depois de atravessar outra vez escolas em ruínas, cidades destruídas e batalhas que parecem nunca terminar, fiquei com a sensação incômoda de que os mutantes, talvez, sejam menos ficção científica do que imaginamos. Afinal, a grande questão da franquia nunca foi exatamente o que acontece quando pessoas nascem com poderes extraordinários. O que sempre esteve no centro é o que acontece quando alguém é considerado diferente. Os mutantes são temidos, perseguidos, registrados, vigiados e, em alguns momentos, tratados como uma ameaça simplesmente porque não se encaixam naquilo que a maioria decidiu chamar de normal. E é aí que a fantasia dos X-Men deixe de ser fantasia.

Basta trocar algumas palavras: em vez de “mutante”, diga gay; em vez de “poderes”, diga cor da pele; em vez de “ameaça”, diga pobreza; em vez de “aberração”, diga qualquer característica que, ao longo da história, tenha servido de desculpa para colocar alguém do lado de fora. A humanidade tem uma criatividade impressionante para inventar categorias de gente que merece menos, pode menos, deve falar menos e, se possível, permanecer invisível. O curioso é que, nos filmes, os mutantes costumam ser perseguidos por aquilo que não escolheram ser. Na vida real, acontece algo parecido: pessoas negras não escolheram a cor da pele, pessoas gays não escolheram a orientação sexual, pessoas pobres, muitas vezes, não escolheram a pobreza. Ainda assim, há quem transforme essas características em sentença. 

Talvez, por isso, a divisão entre Professor Xavier e Magneto seja tão interessante: um acredita que seja possível conviver, dialogar, construir pontes entre diferentes; o outro, após experimentar na própria pele a violência da intolerância, conclui que não há convivência possível com quem deseja exterminá-lo. De certa maneira, os dois representam respostas humanas diante da exclusão: a esperança de que a sociedade possa aprender e a revolta de quem já cansou de esperar. E é impossível assistir a esses filmes sem perceber que a discussão continua atual. Quando uma sociedade diz a determinados grupos que eles precisam esconder quem são para serem aceitos, não está promovendo convivência. Está apenas exigindo que o diferente faça o esforço de parecer igual.

No fim, é possível que os X-Men sejam super-heróis justamente porque não deveriam precisar ser. Nenhuma pessoa deveria precisar de um superpoder para merecer respeito. Nenhum grupo deveria precisar provar que é útil, talentoso, produtivo ou extraordinário para ter direito à dignidade. A grande ironia da franquia é que os mutantes querem apenas aquilo que os seres humanos comuns, em tese, já deveriam saber oferecer: o direito de existir sem pedir desculpas pela própria existência. Reassistindo aos filmes tantos anos depois, percebi que os X-Men continuam lutando contra vilões, robôs, governos e catástrofes. Mas, quiçá, a batalha mais difícil continue sendo a de sempre: convencer uma sociedade apaixonada pela palavra igualdade de que igualdade não significa fazer todo mundo parecer igual, mas sim permitir que cada um possa ser quem é sem precisar se esconder.


ENGLISH VERSION | Could we be the mutants?

Recently, I rewatched all the X-Men films, and after once again making my way through ruined schools, destroyed cities, and battles that seem to have no end, I was left with the unsettling feeling that mutants may be less science fiction than we imagine. After all, the central question of the franchise has never really been what happens when people are born with extraordinary powers. What has always been at the heart of it is what happens when someone is considered different. Mutants are feared, persecuted, registered, monitored, and, at times, treated as a threat simply because they do not fit into what the majority has decided to call normal. And that is where the fantasy of the X-Men ceases to be fantasy.

It is enough to replace a few words: instead of “mutant,” say gay; instead of “powers,” say skin color; instead of “threat,” say poverty; instead of “freak,” say any characteristic that, throughout history, has been used as an excuse to place someone on the outside. Humanity has an impressive talent for inventing categories of people who deserve less, are allowed to do less, are expected to speak less, and, if possible, remain invisible. What is striking is that, in the films, mutants are usually persecuted for something they never chose to be. Something similar happens in real life: Black people did not choose the color of their skin, gay people did not choose their sexual orientation, and poor people often did not choose poverty. And yet there are those who turn these characteristics into a sentence.

Perhaps that is why the divide between Professor Xavier and Magneto is so compelling: one believes that it is possible to coexist, to engage in dialogue, to build bridges between different people; the other, having experienced the violence of intolerance firsthand, concludes that coexistence is impossible with those who seek to exterminate him. In a way, the two represent human responses to exclusion: the hope that society can learn, and the anger of those who have grown tired of waiting. And it is impossible to watch these films without realizing that the debate remains as relevant as ever. When a society tells certain groups that they must hide who they are in order to be accepted, it is not promoting coexistence. It is merely demanding that those who are different make the effort to appear the same.

In the end, it may be that the X-Men are superheroes precisely because they should never have needed to be. No one should need a superpower to deserve respect. No group should have to prove that it is useful, talented, productive, or extraordinary in order to have the right to dignity. The great irony of the franchise is that mutants want only what ordinary human beings, in theory, should already know how to offer: the right to exist without apologizing for their existence. Rewatching the films so many years later, I realized that the X-Men continue to fight villains, robots, governments, and catastrophes. But perhaps the most difficult battle remains the same as always: convincing a society in love with the word equality that equality does not mean making everyone look the same, but rather allowing each person to be who they are without having to hide.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

CRÔNICA | O nome da gente por aí

Há coisas que fazemos e esquecemos. Escrevemos um texto. Publicamo-lo. Entregamos um trabalho. Participamos de um livro. Mandamos um artigo para uma revista. Depois, a vida segue, até que, um dia, alguém resolve fazer algo banal: digitar o nome no Google. 

E foi isso que fiz. Digitei “Márnei Consul” e fiquei alguns minutos diante da tela, encontrando coisas que nem lembrava mais que tinha guardado. O nome estava por aí. Não apenas nas redes sociais, em notícias sobre lançamentos de livros ou em páginas que registram atividades literárias. Estava em lugares que, confesso, me deram uma alegria especial: trabalhos acadêmicos, dissertações, materiais de estudo, referências bibliográficas e textos utilizados para explicar aquilo que eu mesmo, no passado, tentei compreender.

Um dos primeiros encontros foi com “Os discursos direto e indireto à luz da enunciação”, artigo que publiquei na revista Ao Pé da Letra, da UFPE. Escrevi aquele trabalho quando ainda estava na graduação em Letras, na UNISINOS. Hoje, tantos anos depois, reencontro meu nome sendo recuperado em trabalhos acadêmicos e até em materiais utilizados para explicar justamente os discursos direto, indireto e indireto livre. De repente, aquilo que um dia foi uma tarefa acadêmica, deixou de ser apenas meu. Virou referência. E isso, talvez, seja uma das coisas mais bonitas que podem acontecer com um texto.

Também encontrei “Da inércia à possibilidade: os desafios da docência frente às questões de gênero e sexualidade”, escrito com Filipi Vieira Amorim e Júlia Guimarães Neves e publicado na Revista Ártemis. O artigo reaparece em trabalhos acadêmicos que continuam discutindo gênero, sexualidade, homossexualidade e escola. É bom pensar que uma reflexão escrita em determinado momento histórico pode ser retomada por alguém que vive outro momento histórico e ainda encontra nela alguma coisa que lhe serve.

Depois, apareceu “Homossexualidade na escola”, trabalho que também ultrapassou o espaço em que foi originalmente produzido e passou a ser utilizado como fonte em textos que discutem gênero, sexualidade e educação.

Há uma diferença enorme entre publicar algo e descobrir que alguém, em algum lugar, precisou disso. Publicar é lançar. Ser citado é descobrir que alguém encontrou.

Minha produção acadêmica também me levou novamente à Educação Ambiental, com o trabalho sobre uma experiência de formação continuada de professores. Descobri que ele aparece em pesquisa acadêmica posterior, inclusive como objeto de análise. É uma experiência peculiar: alguém não apenas leu o que você escreveu, mas decidiu parar diante daquilo e pensar sobre aquilo (metendo o bedelho às vezes).

Também reencontrei “A importância do espaço no Naturalismo literário”, trabalho que nasceu de uma especialização e, depois, foi publicado como capítulo no livro “Literatura, leitor e estética nas práticas literárias”.

Uma produção mais recente, “Democracia e participação em Santo Antônio da Patrulha: análise da efetividade do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura”, publicada em 2025 no livro “Debates contemporâneos: temas interdisciplinares”, também surgiu. Gosto da ideia de que um texto sobre a cidade em que vivo possa, um dia, ser encontrado por alguém que esteja pesquisando participação social, políticas culturais ou democracia municipal.

E não foram apenas os textos acadêmicos (os chatos, como muitos os classificam). Uma busca pelo meu nome trouxe também meus livros, meus contos, minhas crônicas, antologias e trabalhos publicados pela Pragmatha Editora. Apareceram “Graças às desgraças”, “Do começo”, “Simples intrínseco”, a trilogia “Rivais”, etc. Apareceram, ainda, trabalhos como o “Guia de regras de Língua Portuguesa para escritores”, “Literatura brasileira: conhecimentos básicos e exercícios para escritores”, “Homossexualidade na escola” e “Educação: um olhar de professor”. Até “Uma definição de poesia”, texto publicado originalmente em 2009 no Recanto das Letras, continua circulando pela internet. Quase 17 mil leituras, segundo a página. De-zes-se-te! Bom número, não? Quantas dessas pessoas chegaram até o texto por acaso? Quantas gostaram dele? Quantas passaram os olhos rapidamente? Quantas, talvez, tenham levado alguma frase consigo? Nunca saberei.

O fascinante da internet é que ela nos devolve, anos depois, aquilo que acreditávamos ter deixado para trás: uma fotografia, uma entrevista, um livro, um artigo que você escreveu quando ainda era estudante e, às vezes, devolve seu próprio nome dentro da bibliografia de outra pessoa (CONSUL, Márnei). Para quem pesquisa, uma referência bibliográfica é apenas uma referência bibliográfica. Para quem escreveu, não. Aquele pequeno registro contém horas de leitura, dúvidas, erros, reescritas, inseguranças e a velha pergunta: será que alguém vai ler isso? Pois alguém leu. Inclusive usou.

Um dos sentidos mais bonitos da escrita é que a gente imagina que escreve para ser publicado. Depois, percebe que escreve para ser lido. E, muito mais tarde, descobre que existe uma etapa ainda mais interessante: escrever para ser lembrado por alguém que nem conhecemos.

Fazer uma busca pelo próprio nome pode parecer vaidade. E é, mas não só isso. Escavamos a internet e encontramos versões antigas de nós mesmos, como o estudante de Letras, o professor, o pesquisador, o sujeito jovem que publicou um artigo sobre enunciação, aquele que se aventurou pela Educação Ambiental, etc. No fim das contas, talvez seja isso que todo escritor secretamente espera: que, algum dia, alguém esteja procurando uma resposta e encontre uma frase nossa no caminho. Nesse momento, mesmo sem saber quem foi esse leitor, o escritor já ganhou. E, para quem não vive sem unir palavras escritas, não existe prêmio pequeno quando uma palavra nossa encontra alguém.

E você, já “deu um Google” no seu nome? Conte-me como foi.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA | Ela disse que voltaria

Há dias em que o trabalho nos faz acreditar que já vimos de tudo. Todavia, sem pedir licença, a realidade aparece para provar o contrário. Recentemente, num Conselho Tutelar, uma avó chegou acompanhada dos dois netos, ambos ainda crianças. Disse que sairia apenas por alguns minutos para fumar um cigarro e voltaria em seguida. Uma frase tão comum que ninguém imaginaria o desfecho. Ela não voltou. Desapareceu. Não atendeu ao telefone, não foi, creio eu, sequer encontrada em casa. Enquanto isso, duas crianças perguntavam, com ingenuidade, onde estava a avó e por que ela estava demorando tanto.

A vida já havia sido dura com aqueles infantes. Estavam sob os cuidados da avó, porque a mãe, em outra cidade, se encontrava supostamente consumida pela dependência química. Ainda assim, talvez acreditassem que, apesar de tudo, havia um último porto seguro. Descobrir que até esse porto havia se desfeito é uma violência que nenhuma criança deveria experimentar. O abandono não aconteceu apenas na porta de um órgão público, aconteceu diante dos olhos de quem ainda esperava que um adulto cumprisse a promessa de voltar.

No fim daquela tarde, provavelmente, restou encaminhá-los para um serviço de acolhimento da região. É um lugar de proteção, sem dúvida, mas que não substitui o calor de um lar. A partir de então, o futuro dessas crianças se torna uma sequência de incertezas. Pode ser que encontrem uma família. Talvez, demore. Talvez, nunca aconteça. A realidade da adoção, infelizmente, costuma ser menos generosa com quem já deixou de ser bebê, pois o afeto parece ter prazo de validade.

Naquele dia, fui para casa pensando até onde pode chegar a fragilidade humana. Não para julgar aquela avó, cuja história, talvez, também seja feita de dores que desconheço, mas para lamentar uma sociedade em que o abandono parece se repetir de geração em geração, mudando apenas os personagens. Os Conselhos Tutelares existem para proteger crianças e continuarão cumprindo esse dever. Entretanto, dias como aquele lembram que proteger é remediar uma ferida que já foi aberta antes. E algumas cicatrizes, por mais que o Estado, a Justiça ou a boa vontade tentem alcançar, continuam pertencendo ao lado mais triste da alma.

Observação: Embora inspirada em situações observadas pelo autor ao longo de sua experiência profissional, personagens, circunstâncias e acontecimentos foram modificados ou combinados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

OPINION | The tyranny of notifications

The phone vibrates. Sometimes, it is an important message. Most of the time, it is not. Yet we interrupt conversations, look away from our books, or suspend our thoughts. We have become hostages to small electronic summons that appear at any moment, demanding immediate attention. Technology promised to bring us closer to the world, but in many ways, it has merely fragmented our ability to remain present.

There was a time when silence was part of everyday life. We waited for letters, returned phone calls, or news that arrived at its own pace. Today, even a delay of a few minutes can generate anxiety. The absence of notifications itself can feel unsettling, and the value of our days seems to depend on the number of alerts we receive. Meanwhile, those empty moments that once allowed us to observe, imagine, or reflect are quickly filled with yet another glance at a screen.

Perhaps, the greatest tyranny of notifications lies not in the sound they make, but in the power they exert over us. With every vibration, we surrender a little of our time and attention—two of the most valuable resources we possess. Could it be that true digital freedom consists not in responding more promptly to our devices, but in responding more thoughtfully to the life unfolding around us?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÔNICA | A tirania das notificações

O celular vibra. Às vezes, é uma mensagem importante. Na maioria das vezes, não. Ainda assim, interrompemos a conversa, desviamos o olhar do livro ou suspendemos o pensamento. Tornamo-nos reféns de pequenos chamados eletrônicos que surgem a qualquer hora, exigindo atenção imediata. A tecnologia prometeu nos aproximar do mundo, mas, em muitos momentos, apenas fragmentou nossa capacidade de permanecer presentes.

Houve um tempo em que o silêncio fazia parte da rotina. Esperávamos cartas, retornos telefônicos ou notícias que chegavam no seu próprio ritmo. Hoje, qualquer demora de alguns minutos pode gerar ansiedade. A ausência de notificações chega a causar estranhamento, e o valor de nossos dias parece depender da quantidade de alertas recebidos. Enquanto isso, os instantes vazios, que antes serviam para observar, imaginar ou refletir, são rapidamente preenchidos por mais uma olhada na tela.

Talvez, a maior tirania das notificações não esteja no som que elas produzem, mas sim no poder que exercem sobre nós. A cada vibração, cedemos um pouco do nosso tempo e da nossa atenção, dois dos recursos mais valiosos que possuímos. Será que a verdadeira liberdade digital não consiste em responder menos prontamente aos aparelhos e mais cuidadosamente à vida que acontece ao nosso redor?

terça-feira, 26 de maio de 2026

CRÔNICA | Riscos psicossociais: uma realidade desprezada

Durante muito tempo, o trabalho foi romantizado como medida de dignidade, sucesso e virtude. Sofrer calado era sinônimo de comprometimento, enquanto o cansaço extremo ganhou nomes elegantes em inglês para parecer menos cruel. No meio dessa lógica adoecida, os riscos psicossociais foram tratados como exagero de gente fraca, embora estivessem presentes em corredores corporativos, repartições públicas, fábricas e escritórios climatizados. Hoje, finalmente, começa-se a reconhecer que pressão constante, humilhação, metas abusivas e ausência de descanso não são apenas desconfortos da rotina moderna, mas fatores reais de adoecimento físico e mental. A Portaria MTE nº 1.419/2024 atualizou a NR-1, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A mudança reforça que os riscos psicossociais também precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas, assim como riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

No setor privado, os riscos psicossociais costumam esconder-se atrás de discursos motivacionais e gráficos de produtividade. Há empresas que transformam a competição em método de gestão, estimulando jornadas intermináveis, disponibilidade permanente e uma cultura em que ninguém pode demonstrar cansaço. O trabalhador responde mensagens fora do expediente, participa de reuniões desnecessárias e aprende a sorrir enquanto a ansiedade se instala silenciosamente. Em muitos ambientes, o medo da demissão sustenta relações abusivas, fazendo com que o funcionário normalize situações absurdas apenas para manter o salário no fim do mês.

No setor público, embora a lógica seja diferente, os riscos psicossociais também se manifestam de forma intensa. A sobrecarga provocada pela falta de servidores, estruturas precárias, pressões políticas e burocracias intermináveis produz um desgaste contínuo em profissionais que lidam diariamente com demandas sociais complexas. Professores, profissionais da saúde, assistentes sociais e agentes de atendimento convivem com cobranças elevadas e reconhecimento escasso. Soma-se a isso um ambiente, muitas vezes, engessado, onde conflitos internos se prolongam sem solução, e a sensação de impotência se acumula lentamente. O serviço público carrega a contradição de exigir estabilidade emocional de trabalhadores submetidos a condições emocionalmente instáveis.

Reconhecer os riscos psicossociais é mais do que cumprir normas ou evitar processos judiciais. Trata-se de admitir que ambientes de trabalho podem adoecer pessoas de maneira profunda e duradoura. A nova atenção dada ao tema representa um avanço necessário, ainda que tardio. Afinal, produtividade construída sobre exaustão nunca foi sinal de eficiência, mas de negligência institucionalizada. Nenhuma sociedade se torna saudável quando trata sofrimento como requisito profissional. E, talvez, o maior desafio não seja criar leis, mas abandonar a velha cultura que confunde resistência ao abuso com mérito pessoal. Por isso, patrões e gestores, não adianta reclamar da quantidade de atestados médicos diante de um ambiente que vocês mesmos legitimam.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

CRÔNICA | A vida para ontem

Sou da geração que teve que aprender a usar a internet, que teve que fazer faculdade presencial, mas que teve que se acostumar com a educação a distância para realizar as pós-graduações. Depois de mim, veio a geração que já nasceu num mundo com internet, que não soube como é viver sem o acesso a ela. E, mais recentemente, começaram a nascer criaturas num mundo já com inteligência artificial, onde tudo é relativamente fácil, o conhecimento não precisa ser armazenado, pois basta perguntar à IA como fazer tal coisa, onde tudo é para ontem.

Quando paro para pensar sobre essa evolução de gerações, às vezes, fico assustado. Como será o mercado de trabalho? Haverá aposentadoria? Faculdades ainda terão alunos? Crises de ansiedade serão três por dia? Tudo virou efêmero?

E, no meio dessas perguntas, lembro-me de quando esperar fazia parte da vida: esperar a conexão discada completar aquele chiado; esperar a resposta de uma carta que levava dias; esperar o professor chegar à sala, abrir o livro e, com calma, construir o raciocínio; esperar o filme e o cartucho de videogame retornarem às locadoras, etc. Havia um tempo entre o querer e o ter; e era nesse intervalo que nós aprendíamos mais do que imaginávamos.

Hoje, o intervalo desapareceu. A resposta vem antes mesmo da dúvida amadurecer. E isso, que parece tão eficiente, por vezes, soa como um silêncio estranho: não o silêncio da ausência, mas o da falta de profundidade. Porque saber fazer não é o mesmo que entender por que se faz. Muitos, atualmente, sequer leem o texto completo dado pela IA, não têm paciência.

É uma crítica com carinho. Afinal, cada geração carrega suas facilidades e seus fardos. Se antes lutávamos contra a falta de acesso, agora lutamos contra o excesso dele. Se antes o problema era encontrar informação, hoje é confiar nela. Mudam-se os obstáculos, porém a travessia continua.

Talvez, o mercado de trabalho mude tanto que nem reconheçamos seus contornos. Talvez, as faculdades se reinventem ou desapareçam como conhecemos. Talvez, a ansiedade apenas troque de nome e intensidade. Ou talvez, a essência humana dê um jeito de se adaptar, como sempre fez.

No fim das contas, nenhuma tecnologia conseguiu (ainda) substituir algo muito simples: o desconforto de não saber. É justamente desse desconforto que nascem as perguntas que realmente importam. Pode ser que o problema não seja a facilidade, mas sim o que estamos fazendo com ela.

P.S.: Vou continuar torcendo para que a Skynet nunca surja... Entendedores entenderão.

OPINION | Life for yesterday

I belong to the generation that had to learn how to use the internet, that had to attend college in person, but then had to adapt to distance education to complete postgraduate studies. After me came the generation that was born into a world with internet access, one that never knew what it was like to live without it. And more recently, “beings” have begun to be born into a world already shaped by artificial intelligence, where everything is relatively easy, where knowledge no longer needs to be stored because one can simply ask AI how to do something, where everything is needed for yesterday.

When I think about this evolution of generations, I sometimes feel uneasy. What will the job market look like? Will there be retirement? Will universities still have students? Will anxiety crises happen three times a day? Has everything become ephemeral?

And in the midst of these questions, I remember when waiting was part of life: waiting for the dial-up connection to complete that almost musical screech; waiting for the reply to a letter that took days; waiting for the teacher to arrive in the classroom, open the book, and calmly build a line of reasoning; waiting for a movie or a video game cartridge to return to the rental store, and so on. There was a time between wanting and having, and it was in that interval that we learned more than we realized.

Today, that interval has disappeared. The answer comes before the question has even had time to mature. And this, which seems so efficient, sometimes sounds like a strange silence, not the silence of absence, but of a lack of depth. Because knowing how to do something is not the same as understanding why it is done. Many people today do not even read the full text provided by AI; they simply do not have the patience.

It is a critique made with affection. After all, each generation carries its own conveniences and burdens. If before we struggled with lack of access, now we struggle with its excess. If before the problem was finding information, today it is trusting it. The obstacles change, but the journey continues.

Perhaps, the job market will change so much that we will no longer recognize its contours. Perhaps, universities will reinvent themselves or disappear as we know them. Perhaps, anxiety, this old acquaintance in new clothes, will simply change its name and intensity. Or perhaps, the human essence will find a way to adapt, as it always has.

In the end, no technology has yet managed to replace something very simple: the discomfort of not knowing. It is precisely from this discomfort that the questions that truly matter are born. It may be that the problem is not ease itself, but what we are doing with it.

P.S.: I will keep hoping that Skynet never comes into existence… Those who know know.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

CRÔNICA | A vulnerabilidade digital da terceira idade

Chamaram de avanço. De fato, é. A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital nasceu da urgência de proteger quem ainda está aprendendo a existir no mundo, agora também nas telas. Crianças precisam de cuidado, orientação, limites. Precisam de adultos por perto, inclusive no invisível das redes.

Mas, enquanto olhamos para os pequenos deslizando os dedos sobre telas coloridas, há outros dedos, mais lentos, mais hesitantes, tentando acompanhar um mundo que corre rápido demais. São mãos que já trabalharam décadas, que já escreveram cartas, assinaram papéis, apertaram outras mãos. Hoje, essas mesmas mãos recebem mensagens com links suspeitos, ligações urgentes, promessas de amor improvável.

O Brasil envelhece e, com ele, cresce a exposição de quem tem mais de 60 anos a uma nova forma de violência: a digital. Não é o assalto na esquina, não é o empurrão no ônibus. É algo mais silencioso: uma conversa gentil que vira golpe; um “bom dia” que termina em prejuízo; um “eu te amo” que custa caro demais; e por aí vai.

O Estatuto da Pessoa Idosa já nos ensinava, muito antes da internet dominar o cotidiano, que envelhecer é um direito (com dignidade, respeito e proteção). Porém, talvez, ainda não tenhamos entendido que essa proteção também precisa de Wi-Fi, precisa de informação acessível, de educação digital, de políticas públicas que enxerguem o idoso não como alguém “fora do sistema”, mas como alguém vulnerável dentro dele.

Enquanto ensinamos uma criança a não falar com estranhos na internet, quem ensina o idoso a desconfiar de quem fala bonito demais? Enquanto criamos mecanismos para proteger dados de jovens, quem protege a aposentadoria de quem confia?

A verdade é que o cuidado não pode ter idade limite. Não pode parar nos 18 anos. A vulnerabilidade muda de forma ao longo da vida, mas não desaparece. Às vezes, ela só troca de nome: deixa de ser “inocência” e passa a ser “confiança”.

É necessário ampliar nosso olhar e entender que proteger crianças no mundo digital é essencial, mas proteger idosos é urgente. Porque, no fim das contas, todos nós estamos atravessando o mesmo caminho. Só estamos em pontos diferentes dele. E, um dia, inevitavelmente, seremos nós do outro lado da tela.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CRÔNICA | Ignorância é uma bênção?

Outro dia, entre uma aula e outra, uma aluna lançou uma fala que me deixou reflexivo: “Ignorância é uma bênção hoje em dia”. Disse isso com naturalidade, mas havia ali um peso que não se dissipava facilmente.

Fiquei a pensar no mundo que nos cerca, onde guerras são transmitidas quase em tempo real, discursos inflamados atravessam continentes, conflitos parecem não ter começo claro nem fim à vista, e por aí vai. Há dias em que abrir um portal de notícias é como mirar o caos. Não é exagero dizer que saber demais pode, sim, adoecer.

A informação, que um dia foi promessa de liberdade, virou um fardo também. Saber implica carregar. E carregar, às vezes, cansa. Quem acompanha tudo sente o peso das decisões políticas, das disputas de poder e das tragédias repetidas com pequenas variações. A mente não desliga; o coração não acompanha.

Nesse sentido, a ignorância parece oferecer um tipo estranho de conforto: quem não sabe não sofre da mesma forma; quem não acompanha dorme melhor. Há uma leveza em não se envolver com o que está distante, em não se responsabilizar emocionalmente por aquilo que foge ao nosso controle.

Mas, atenção, essa leveza tem um preço. Ignorar o mundo não o torna menos real. Os conflitos continuam, as decisões continuam sendo tomadas, as consequências continuam chegando, ainda que mais tarde e mais perto. A ignorância protege, mas também limita. Ela anestesia, mas também enfraquece.

Há uma diferença importante entre não saber e escolher como saber. Talvez, o problema não esteja na informação em si, porém na forma como nos relacionamos com ela. Consumir tudo o tempo todo, como se fosse possível dar conta do mundo inteiro, é receita certa para o esgotamento. Por outro lado, fechar os olhos completamente é abrir mão de compreender o próprio tempo.

Penso que, entre o excesso e a ausência, há um caminho mais difícil: o da consciência seletiva. Com ela, é possível informar-se, mas com critério; entender, mas sem se afogar; reconhecer os problemas do mundo sem permitir que eles destruam a capacidade de viver.

Ignorância pode até parecer uma bênção em dias mais pesados. No entanto, quiçá, não seja exatamente uma bênção, e sim um alívio temporário. E como alívio fácil, ela pode cobrar depois. No fim, não se trata de saber tudo ou nada saber. Trata-se de aprender a suportar o que se sabe e, principalmente, de decidir o que vale a pena carregar.

OPINION | Is ignorance a blessing?

The other day, between one class and another, a student made a remark that left me reflective: “Ignorance is a blessing nowadays.” She said it naturally, but there was a weight there that did not dissipate easily.

I found myself thinking about the world around us, where wars are broadcast almost in real time, heated speeches cross continents, conflicts seem to have neither a clear beginning nor an end in sight, and so on. There are days when opening a news portal feels like staring into chaos. It is no exaggeration to say that knowing too much can, indeed, make one ill.

Information, which was once a promise of freedom, has also become a burden. Knowing implies to carry. And carrying, at times, is exhausting. Those who follow everything feel the weight of political decisions, power disputes and tragedies repeated with slight variations. The mind does not switch off; the heart cannot keep up.

In this sense, ignorance seems to offer a strange kind of comfort: those who do not know do not suffer in the same way; those who do not follow sleep better. There is a lightness in not getting involved with what is distant, in not taking emotional responsibility for what lies beyond our control.

But, attention, this lightness comes at a price. Ignoring the world does not make it any less real. Conflicts continue, decisions continue to be made, consequences continue to arrive, even if later and closer. Ignorance protects, but it also limits. It numbs, but it also weakens.

There is an important difference between not knowing and choosing how to know. Perhaps the problem does not lie in information itself, but in the way we relate to it. Consuming everything all the time, as if it were possible to grasp the entire world, is a certain recipe for exhaustion. On the other hand, closing one’s eyes completely is to give up understanding one’s own time.

I think that, between excess and absence, there is a more difficult path: that one of selective awareness. With it, it is possible to stay informed, but with discernment; to understand, but without drowning; to recognize the world’s problems without allowing them to destroy the capacity to live.

Ignorance may even seem like a blessing on heavier days. However, perhaps it is not exactly a blessing, but rather a temporary relief. And like an easy relief, it may charge its price later. In the end, it is not about knowing everything or knowing nothing. It is about learning to bear what one knows and, above all, deciding what is worth carrying.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

CRÔNICA | Juventude como obrigação moral

Há tempo, eu deveria ter escrito esta crônica, mas, como quase sempre, falta tempo para as coisas boas da vida. No entanto, agora em minhas pseudoférias (um dia, conto o porquê disso), acabei revendo o filme "A substância", com Demi Moore. Então, nasceu o texto.

Há um momento no filme em que fica claro que o terror não está no laboratório, nem na seringa, nem no espelho. O horror verdadeiro é social. É o contrato silencioso que assinamos sem ler, a saber: envelhecer, sim, mas discretamente. Preferencialmente, sem rugas, sem flacidez, sem sinais de que o tempo inconveniente passou por nós.

Demi Moore, a meu ver, não interpreta apenas uma personagem. Ela encarna um arquétipo contemporâneo: o corpo que vence enquanto obedece. Jovem, produtivo, desejável. Quando deixa de cumprir tais funções, passa a ser um problema a ser corrigido, otimizado e até substituído. Isso não é ficção científica.

Vivemos a era da juventude compulsória. Não basta ser competente, experiente ou inteligente. É preciso parecer tudo isso sem jamais parecer cansado. O cansaço envelhece. A maturidade pesa. A serenidade não viraliza na internet. O algoritmo prefere a pele esticada, o sorriso treinado e a energia artificial de quem ainda finge que acabou de começar seja lá o que for.

O envelhecimento, que já foi sinal de autoridade, virou falha de caráter. Rugas são lidas como descuido. Cabelos brancos, como desistência. O corpo maduro não inspira respeito, inspira pena. Ou pior: invisibilidade.

"A substância" expõe essa lógica com crueldade. A promessa é simples e obscena: você pode continuar relevante, desde que aceite se fragmentar. Uma versão sua para o mundo e outra descartável, escondida, envelhecendo em silêncio. Parece absurdo no cinema. Fora dele, isso tem sido chamado de gestão da imagem pessoal. E há profissionais que ganham bem para isso.

O mais perverso é que não se trata apenas de aparência. A juventude exigida hoje é estética, emocional e moral. Esperam-se entusiasmo eterno, flexibilidade infinita e adaptação sem luto. Envelhecer implica dizer “não”, estabelecer limites, recusar certas humilhações. Isso não combina com o mercado.

No fundo, o filme nos faz perguntas incômodas: até que ponto estamos dispostos a nos mutilar simbolicamente para continuar desejáveis? Quantas versões de nós mesmos já sacrificamos em nome de aceitação, curtidas, contratos, convites que só chegam enquanto aparentamos frescor?

Entretanto, o corpo envelhece. Isso é biologia. O problema é a sociedade que envelhece mal, apavorada com o espelho, incapaz de lidar com o tempo sem tentar burlá-lo. Se pensarmos bem, "A substância" não fala sobre juventude, fala sobre medo. E ele, ao contrário das rugas, não se disfarça com maquiagem.

E por falar em medo, eu é que tenho medo de perguntar aqui: você usariam a substância do filme? Não mintam! Podem me responder de forma privada.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

CRÔNICA | Fim do ano, ou fim do mundo?

A cada dezembro, acontece um fenômeno curioso, quase antropológico: as pessoas não encerram o ano, elas entram em colapso. O calendário avança um número e, de repente, a humanidade passa a se comportar como se estivesse evacuando o planeta.

Há pressa em tudo: no trânsito, nos mercados, nas farmácias, nos caixas eletrônicos e, principalmente, nas emoções. Todos parecem atrasados para algum compromisso invisível, como se o dia 31, à meia-noite, fosse acompanhado por uma sirene e um fiscal existencial, cobrando pendências da alma.

Os supermercados viram arenas. Carrinhos disputam território. Pessoas brigam por uvas passas. O frango natalino, coitado, é tratado como entidade sagrada: se acabar, acaba o ano junto.

Nas ruas, motoristas dirigem como se o asfalto fosse desaparecer em 48 horas. Não é pressa, é desespero. Setas são ignoradas, gentileza entra em recesso coletivo. Ninguém quer chegar rápido; quer fugir.

Na área afetiva, o surto é ainda mais sofisticado. Surge a urgência de rever pessoas que passaram o ano inteiro sendo ignoradas, enviar mensagens genéricas recheadas de votos grandiosos e promessas vagas de “ano novo, vida nova”. A esperança é terceirizada para o calendário, como se janeiro tivesse poderes terapêuticos (ou mágicos).

Há, também, o pânico das listas: metas não cumpridas, projetos abandonados, corpos não esculpidos, contas não pagas, livros não lidos, etc. Dezembro vira um tribunal, onde todos se condenam por não terem sido versões irreais de si mesmos. Há julgamento e culpa (muita).

No fundo, essa afobação não é sobre festas, compras ou retrospectivas: é medo. Medo de que o tempo esteja passando rápido demais e alguém esteja percebendo. Medo de encarar que a vida não se organiza sozinha, só porque o calendário muda. Medo de admitir que o ano acaba, sim, mas os problemas, hábitos e escolhas atravessam a fronteira sem pedir autorização.

Talvez, fosse mais honesto tratar o fim do ano como ele realmente é: apenas o fim de um ano, sem histeria, sem correria, sem encenação coletiva de que algo sobrenatural está prestes a acontecer. Aqui vai um "spoiler": não está.

O mundo não acaba no dia 31. Sua ansiedade também não. Ainda assim, caro leitor, desejo-lhe: boas festas...

terça-feira, 18 de novembro de 2025

CRÔNICA | Costurados de nós mesmos

Guillermo del Toro, com aquela devoção enorme e quase religiosa por monstros, fez em “Frankenstein” algo que Mary Shelley já sussurrava e que nós fingimos não ouvir: a criatura não é um erro, é um espelho daqueles que devolvem a verdade sem filtro de beleza.

O monstro nasce de pedaços. Mas sejamos francos: quem não? Depois de ter visto o filme, o qual está disponível no catálogo da Netflix, passei a refletir sobre ele como um todo, não apenas como uma releitura do livro e de outras películas passadas.

Também somos um mosaico malcomportado de tudo o que tocou nossa vida: as decisões que tomamos por impulso, os medos herdados, as cicatrizes de quem nos amou mal, as lembranças de quem nos amou corretamente, os erros familiares, etc. Nada em nós é puro ou original. Somos editados, costurados com linhas de afetos e grampeados com traumas que superamos (ou fingimos ter superado).

A diferença é que o monstro de Del Toro nada tenta disfarçar. Ele exibe a costura. Nós, não, passamos a vida inteira nos debatendo para esconder pontos soltos, como se vulnerabilidade fosse defeito de fabricação e demonstrasse fraqueza. Ironicamente, é isso que nos aproxima ainda mais da criatura: vivemos com a sensação de que estamos sempre fora do lugar, sempre tentando provar que merecemos existir, sempre acreditando que, se alguém olhar perto demais, verá a colcha de retalhos emocional que somos.

No fundo, a verdade incômoda é simples: somos todos um pouco o monstro de Frankenstein, carregando dentro de nós pedaços de gente que passou, de dores que ficaram, de memórias que insistem em retornar. E se há algo bonito nisso, é que, apesar da colagem imperfeita, seguimos caminhando com nossas cicatrizes, nossos retalhos e uma estranha persistente em pulsar, mesmo quando o mundo diz que não deveríamos fazer isso.

Será que Del Toro sempre soube que o monstro só parece assustador para quem ainda não aprendeu a se enxergar? E nós sabemos? Nossos pedaços souberam? Vamos pensando...

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

CRÔNICA | Uma (quase) vitrine humana

Esses dias, assisti ao filme “Amores materialistas”, disponível na plataforma HBO Max. Nada exagerado em termos de interpretação, produção, etc. Nele, uma mulher de 30 e poucos anos trabalha numa agência casamenteira, arranjando relacionamentos com base em características comuns, quando encontra um cara rico de 50 anos que chama sua atenção e, no mesmo dia, reencontra um ex-namorado pobre de 30 e poucos anos como ela. A película fez-me pensar sobre o tema da oferta de pessoas/corpos/comportamentos.

Quem entra num aplicativo de relacionamentos sente que está num supermercado, mas sem carrinho, só com o dedo. Arrasta para a direita, arrasta para a esquerda. Há gente linda, polida, filtrada. Há rótulos bem feitos: espontâneo, fitness, viajante. É um catálogo de sonhos embalados, ou seja, o amor virou vitrine, e cada um tenta se vender como pode.

Uns colocam no perfil o carro, o corpo, o destino da última viagem. Outros preferem vender a alma, num discurso um tanto poético, porém sempre com uma boa iluminação. O importante é ser desejável, ninguém quer parecer fora de linha.

As conversas começam como negociações: “O que você procura?”; “O que você oferece?”. Amor virou transação comercial, sentimento com prazo de validade e política de devolução. Se não serve, devolve. Se enjoa, troca.

Vivemos a era dos amores materialistas (como o título do filme), e não falo de dinheiro, mas sim de superfície. Valorizamos mais o brilho do que tudo. Mais a aparência do que o encontro.

As pessoas viraram produtos com embalagens emocionais. E o mais curioso é que ninguém se rebela, todos participam da feira, tentando parecer mais caros, mais raros, mais clicáveis.

No fundo, as pessoas ainda querem o mesmo: ser vistas, ser escolhidas, ser amadas. Só esquecem que o amor não cabe em vitrine, eis que, diferentemente do consumo, ele não melhora quando tem muitos “likes”.

O filme chama atenção para isso, quando as/os clientes da personagem principal fazem mil e uma exigências sobre como querem que as pessoas sejam, as pessoas que serão apresentadas a elas. E é tudo pago. Quando um casal apresentado pela agência finalmente casa, há festinha na empresa.

Enquanto isso, a humanidade segue rolando a tela, procurando alguém que pareça original, sem perceber que todos nós já estamos com o código de barras colado na pele.

Ah, e quanto ao dilema da personagem (“tiozão” rico ou ex-namorado jovem pobre), você terá que assistir ao filme para saber o que ocorre. Aliás, se fosse você na situação dela, o que faria?

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

CRÔNICA | Língua portuguesa: o drama das palavras

Escrever bem, dizem, é um dom. Bobagem! Escrever bem é um ato de paciência e, talvez, de resistência. Em um mundo em que tudo precisa caber em duzentos e poucos caracteres, quem se detém para conferir se “mas” tem “i” ou não parece um sobrevivente de outra era.

Não que as pessoas não saibam português. Sabem, sim (ou, pelo menos, acreditam saber). Cresceram ouvindo que o importante é se comunicar, como se isso fosse apenas jogar palavras ao ar e esperar que elas façam sentido sozinhas. O problema é que, às vezes, não fazem. A vírgula fora do lugar muda o sentido, o “mau” e o “mal” confundem, o “por que” vira um pesadelo de quatro variações... E o resultado é um texto que soa como aquele amigo que fala muito, mas diz nada.

Há quem culpe a escola, o professor, o celular, o corretor automático, a pressa, a vida moderna. E há também quem defenda que escrever corretamente é frescura. Mas quem já não se viu, em meio a um texto mal pontuado, tentando entender o que o outro quis dizer? Eu, por exemplo, sim (e por muitas vezes). Escrever bem não é exibicionismo: é generosidade. É facilitar a vida do leitor, é dizer algo assim: “Eu me importo em ser claro para você”.

A verdade é que o português, com todas as suas regras e exceções, com frequência, vira um drama de palavras, logo, exige muita atenção. Ele pede cuidado(s). E, no fundo, é isto o que falta: tempo e vontade de cuidar da língua, de tratá-la não como um peso, mas como uma companhia que, quanto mais conhecida, mais familiar se torna.

Porque escrever bem não é um luxo; é um gesto de respeito com o outro, com a própria ideia e (por que não?) com o idioma que insiste em sobreviver, mesmo entre abreviações, emojis, “seje” e “menas” de todos os dias...

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

CRÔNICA | A importância (não) dada ao Conselho Tutelar

O telefone do plantão toca no Conselho Tutelar. Uma das conselheiras atende, e é mais um pedido de ajuda, mais uma denúncia, mais uma família em conflito. Do outro lado da linha, quase sempre, há silêncio misturado com medo. Do lado de cá, há conselheiras com pastas cheias de casos, prazos correndo, visitas marcadas e uma sensação constante de estar apagando incêndios com baldes furados.

No entanto, quando alguém comenta sobre o Conselho Tutelar na rua, no ônibus ou na fila do supermercado, a frase costuma vir carregada de preconceito: “Ah, as conselheiras não fazem nada. Só aparecem para tirar criança de casa.” Como se o Conselho fosse um vilão de novela, entrando em cena apenas para separar mães e filhos, para “atrapalhar” a vida das famílias. Poucos lembram que ele existe não para destruir lares, mas para tentar reconstruí-los, quando já estão caindo aos pedaços.

Desde que passei a acompanhar o trabalho do Conselho Tutelar, devido a meu vínculo com a Secretaria Municipal do Desenvolvimento Social de Santo Antônio da Partulha/RS, percebi que a verdade é que o Conselho Tutelar é chamado onde a infância foi esquecida, onde a criança vai dormir sem jantar, onde o grito virou rotina, onde a violência, a negligência ou a indiferença já moram há muito tempo. Mas essa parte não aparece na opinião popular. É mais fácil achar que o Conselho “não serve para nada”, do que admitir que vivemos em uma sociedade que ainda falha em proteger seus menores.

Talvez, falte à população enxergar que as conselheiras — tantas vezes julgadas como burocratas acomodadas — são, na prática, pontes frágeis entre a dor e a justiça. Elas não têm superpoderes, não carregam varinhas mágicas, não podem prometer finais felizes. porém podem ouvir, registrar, encaminhar e insistir. E isso, em um país que, tantas vezes, faz de conta que não vê as feridas da infância, já é um ato de resistência.

É irônico então: cobramos que o Conselho faça milagres, mas não lhe damos estrutura, respeito ou sequer o benefício da dúvida. É uma importância não dada a ele.

No fim das contas, pode ser que a maior injustiça com o Conselho Tutelar seja esta: não percebermos que, quando ele é chamado, é porque já falhamos como comunidade. E, ainda assim, preferimos acusá-lo de omissão a reconhecer a nossa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

CRÔNICA | A lente da idade

O espelho da ótica sempre foi um lugar ingrato. Ele não perdoa olheiras, destaca cada ruga e, para piorar, devolve a imagem daquele objeto novo, estranho, sobre o nariz: os óculos de grau. A primeira vez que alguém se vê assim, com a armação escolhida — ou resignadamente aceita — é como um pequeno rito de passagem, desses que não se encontram em manual nenhum da vida adulta.

Até então, a gente se acostuma a acreditar que enxerga tudo. O letreiro distante, a bula impressa em letras microscópicas, o preço no cardápio — tudo parecia estar ao alcance dos olhos. Até que um dia a vista começa a brincar de esconde-esconde. As letras escapam, os contornos se embaralham, e surge aquela sensação incômoda de que o mundo continua nítido, só que não mais para você.

É nessa hora que a ficha cai: não são apenas os olhos que mudaram, mas o tempo que avançou sem pedir licença. O primeiro óculos não é apenas um acessório, é uma confissão silenciosa, é a lente da idade. Ele anuncia que já não se é tão jovem quanto se pensava — e, paradoxalmente, abre também uma nova nitidez: a de enxergar a própria idade chegando.

Mas há algo de curioso neste instante. Depois da resistência inicial, vem a descoberta: a vida recupera contornos. As letras voltam a se alinhar, os rostos ganham definição, as cores parecem agradecer. É como se o tempo dissesse: “Sim, estou passando, mas ainda lhee dou a chance de olhar o mundo com clareza.”

Em 19 de setembro, obriguei-me a consultar um oftalmologista. Em 23, tive a difícil, curiosa e resignante tarefa de escolher minha primeira armação. No fim, percebi que escolher óculos é como aceitar um pacto: envelhecer traz suas renúncias, mas também oferece novas formas de ver. E, quem diria, às vezes até com mais beleza.

— Mas, Márnei, quantos anos você tem?

— Vinte e cinco...

sábado, 13 de setembro de 2025

CRÔNICA | Duas vidas na semana

Acorda-se cedo. O despertador do celular invade o silêncio do quarto com sua insistência mecânica e melódica. Café rápido, troca de roupas, ajeitada na cara, e lá vamos nós para mais um dia de trabalho. Segunda, terça, quarta-feira… A sequência quase hipnótica parece não ter fim. Todos correm, apressados, com olhares fixos em telas, papéis e metas. Trabalham para pagar contas, pagar sonhos, pagar tempo. Mas que tempo é esse que se paga com esforço e estresse, apenas para esperar que chegue o fim de semana?

Ah, o sábado e o domingo! Como se fossem o oásis prometido no deserto da semana, esses dois dias são idolatrados como um prêmio. Durante eles, tudo parece permitido: passeios, encontros, descanso. Mas há um preço invisível embutido em cada risada de sábado à tarde: os cinco dias anteriores, gastos em ansiedade, pressa e tensão. É um ciclo que aprisiona, um ritual que molda vidas na expectativa de apenas dois dias de liberdade.

O paradoxo é cruel. Trabalhamos para viver melhor, mas a vida que se vive melhor é comprimida em quarenta e oito horas. Quantas conversas são interrompidas, quantos sorrisos se perdem, quantas manhãs de sol são ignoradas em função de relatórios e reuniões? A saúde, o sono e a paz interior tornam-se moedas de troca, enquanto a felicidade parece adiada, sempre para depois.

Talvez, a qualidade de vida não esteja em quantos fins de semana conseguimos aproveitar, mas em aprender a enxergar o valor de cada momento: uma pausa no trabalho, um café com um amigo, a leitura que nos acalma ou a caminhada pelo bairro. A vida não precisa ser um aperto de parafusos de segunda a sexta para, depois, explodir em dois dias de lazer. A vida é feita de minutos, e cada minuto merece ser vivido.

Se nos matamos trabalhando apenas para curtir dois dias, talvez, seja hora de repensar: trabalhar para viver ou viver para trabalhar? Afinal, a felicidade não se compra com horas extras, nem se acumula em folgas. Ela se encontra na arte de transformar cada dia em algo que valha a pena, não apenas em esperar pelo sábado.

Em síntese, fica a pergunta: é possível unir as duas vidas que temos durante a semana (uma de segunda a sexta e outra no sábado e no domingo)? O que você me diz, leitor?

segunda-feira, 6 de maio de 2024

CRÔNICA | “Empatia”, a palavra do momento no Rio Grande do Sul

Nos últimos dias, eu e uma tia estivemos em Parobé/RS, uma das cidades atingidas pelas graves enchentes, para prestar algum tipo de ajuda. Foi muito triste ver as pessoas perderem tudo ou quase tudo. Logicamente, perder a vida é o pior, mas a sensação de chegar a um local e ver, nas frentes das casas, o que antes estava dentro delas é horrível. Pertences que, muitas vezes, foram adquiridos com trabalho e suor descartados por não prestarem mais. Foram cenas que, realmente, me impactaram.

Em dado momento, vieram uma retroescavadeira e um caminhão da Prefeitura, a fim de recolher os agora entulhos. Que coisa tão agoniante ver o que sobrou de sofás, camas, eletrodomésticos, etc. irem para dentro de uma caçamba, para serem descartados em seguida. Fiquei pensando que era uma parte da vida daquelas pessoas indo embora. E uma parte cara.

Mesmo tendo ocorrido extremos climáticos em 2023, o governo estadual não se preparou para um novo evento assim. “Ah, Márnei, mas não havia como prever que seria tão grave”. Discordo um pouco disso, pois dar porcentagem mínima para a Defesa Civil no orçamento é uma forma de previsão, não? Cientistas, há anos, informam que eventos assim serão cada vez mais comuns, e nosso estado – no sul do país – terá, sim, chuvas intensas com muita frequência. Não será de vez em quando.

Seja como for, o que quero destacar neste texto é a empatia das pessoas. “Empatia”, inclusive, é a palavra para o Rio Grande do Sul no momento. Colocar-se no lugar do outro, entender a dor dele, imaginar como seria se eu perdesse tanto quanto ele. Uma pena que essa empatia surge apenas nas desgraças. Se ela fosse algo constante, teríamos sucesso como sociedade, não agrediríamos tanto Gaia (a Terra) e não estaríamos sofrendo sua vingança agora.

Empatia, gaúchos e brasileiros! Tenham-na! Ajudem quem precisa! Sempre é possível fazer algo.

Restos do que, antes, compunha as casas...

... sendo recolhidos como entulhos agora...

... indo embora das vidas das pessoas.