Há coisas que fazemos e esquecemos. Escrevemos um texto.
Publicamo-lo. Entregamos um trabalho. Participamos de um livro. Mandamos um
artigo para uma revista. Depois, a vida segue, até que, um dia, alguém resolve
fazer algo banal: digitar o nome no Google.
E foi isso que fiz. Digitei “Márnei Consul” e fiquei alguns
minutos diante da tela, encontrando coisas que nem lembrava mais que tinha
guardado. O nome estava por aí. Não apenas nas redes sociais, em notícias sobre
lançamentos de livros ou em páginas que registram atividades literárias. Estava
em lugares que, confesso, me deram uma alegria especial: trabalhos acadêmicos,
dissertações, materiais de estudo, referências bibliográficas e textos
utilizados para explicar aquilo que eu mesmo, no passado, tentei compreender.
Um dos primeiros encontros foi com “Os discursos direto e
indireto à luz da enunciação”, artigo que publiquei na revista Ao Pé da Letra,
da UFPE. Escrevi aquele trabalho quando ainda estava na graduação em Letras, na
UNISINOS. Hoje, tantos anos depois, reencontro meu nome sendo recuperado em
trabalhos acadêmicos e até em materiais utilizados para explicar justamente os
discursos direto, indireto e indireto livre. De repente, aquilo que um dia foi
uma tarefa acadêmica, deixou de ser apenas meu. Virou referência. E isso,
talvez, seja uma das coisas mais bonitas que podem acontecer com um texto.
Também encontrei “Da inércia à possibilidade: os desafios da
docência frente às questões de gênero e sexualidade”, escrito com Filipi Vieira
Amorim e Júlia Guimarães Neves e publicado na Revista Ártemis. O artigo
reaparece em trabalhos acadêmicos que continuam discutindo gênero, sexualidade,
homossexualidade e escola. É bom pensar que uma reflexão escrita em determinado
momento histórico pode ser retomada por alguém que vive outro momento histórico
e ainda encontra nela alguma coisa que lhe serve.
Depois, apareceu “Homossexualidade na escola”, trabalho que
também ultrapassou o espaço em que foi originalmente produzido e passou a ser
utilizado como fonte em textos que discutem gênero, sexualidade e educação.
Há uma diferença enorme entre publicar algo e descobrir que
alguém, em algum lugar, precisou disso. Publicar é lançar. Ser citado é
descobrir que alguém encontrou.
Minha produção acadêmica também me levou novamente à
Educação Ambiental, com o trabalho sobre uma experiência de formação continuada
de professores. Descobri que ele aparece em pesquisa acadêmica posterior, inclusive
como objeto de análise. É uma experiência peculiar: alguém não apenas leu o que
você escreveu, mas decidiu parar diante daquilo e pensar sobre aquilo (metendo
o bedelho às vezes).
Também reencontrei “A importância do espaço no Naturalismo
literário”, trabalho que nasceu de uma especialização e, depois, foi publicado
como capítulo no livro “Literatura, leitor e estética nas práticas literárias”.
Uma produção mais recente, “Democracia e participação em
Santo Antônio da Patrulha: análise da efetividade do Conselho Municipal de
Políticas Públicas de Cultura”, publicada em 2025 no livro “Debates
contemporâneos: temas interdisciplinares”, também surgiu. Gosto da ideia de que
um texto sobre a cidade em que vivo possa, um dia, ser encontrado por alguém
que esteja pesquisando participação social, políticas culturais ou democracia
municipal.
E não foram apenas os textos acadêmicos (os chatos, como
muitos os classificam). Uma busca pelo meu nome trouxe também meus livros, meus
contos, minhas crônicas, antologias e trabalhos publicados pela Pragmatha
Editora. Apareceram “Graças às desgraças”, “Do começo”, “Simples intrínseco”, a
trilogia “Rivais”, etc. Apareceram, ainda, trabalhos como o “Guia de regras de
Língua Portuguesa para escritores”, “Literatura brasileira: conhecimentos
básicos e exercícios para escritores”, “Homossexualidade na escola” e “Educação:
um olhar de professor”. Até “Uma definição de poesia”, texto publicado
originalmente em 2009 no Recanto das Letras, continua circulando pela internet.
Quase 17 mil leituras, segundo a página. De-zes-se-te! Bom número, não? Quantas
dessas pessoas chegaram até o texto por acaso? Quantas gostaram dele? Quantas
passaram os olhos rapidamente? Quantas, talvez, tenham levado alguma frase
consigo? Nunca saberei.
O fascinante da internet é que ela nos devolve, anos depois,
aquilo que acreditávamos ter deixado para trás: uma fotografia, uma entrevista,
um livro, um artigo que você escreveu quando ainda era estudante e, às vezes,
devolve seu próprio nome dentro da bibliografia de outra pessoa (CONSUL,
Márnei). Para quem pesquisa, uma referência bibliográfica é apenas uma
referência bibliográfica. Para quem escreveu, não. Aquele pequeno registro
contém horas de leitura, dúvidas, erros, reescritas, inseguranças e a velha
pergunta: será que alguém vai ler isso? Pois alguém leu. Inclusive usou.
Um dos sentidos mais bonitos da escrita é que a gente
imagina que escreve para ser publicado. Depois, percebe que escreve para ser
lido. E, muito mais tarde, descobre que existe uma etapa ainda mais
interessante: escrever para ser lembrado por alguém que nem conhecemos.
Fazer uma busca pelo próprio nome pode parecer vaidade. E é,
mas não só isso. Escavamos a internet e encontramos versões antigas de nós
mesmos, como o estudante de Letras, o professor, o pesquisador, o sujeito jovem
que publicou um artigo sobre enunciação, aquele que se aventurou pela Educação
Ambiental, etc. No fim das contas, talvez seja isso que todo escritor
secretamente espera: que, algum dia, alguém esteja procurando uma resposta e
encontre uma frase nossa no caminho. Nesse momento, mesmo sem saber quem foi
esse leitor, o escritor já ganhou. E, para quem não vive sem unir palavras
escritas, não existe prêmio pequeno quando uma palavra nossa encontra alguém.
E você, já “deu um Google” no seu nome? Conte-me como foi.