Na segunda-feira em que o filho voltou às aulas da educação
infantil, Martha acordou antes do despertador. Não por amor à rotina, mas por
alívio. Preparou o café com uma alegria doméstica quase indecente, cantarolando
enquanto cortava o pão em fatias tortas. Vestiu o menino com cuidado excessivo:
mochila pronta, lanche saudável e beijo na testa. Na porta da escola, acenou
mais tempo do que o necessário. Quando o portão se fechou, respirou fundo: estava
oficialmente livre por quatro horas.
Chamava aquilo de “tempo para si”, expressão que aprendera
em postagens femininas e aplicava com rigor seletivo. Seu tempo para si tinha
nome, cheiro de loção barata e o dom inconveniente de fazê-la rir das próprias
mentiras: chamava-se Paulo e morava a sete quarteirões dali, num apartamento
antigo com elevador lento e um sofá que rangia.
Martha chegou pontualmente como sempre. Tirou os sapatos,
largou a bolsa no chão e beijou Paulo com a pressa de quem sabe que o relógio
conspira contra. Riram de banalidades. Ela comentou que o filho adorara a
professora nova; ele respondeu que o prédio estava com problemas no gás. Coisas
pequenas, ditas entre um beijo e outro.
Depois, decidiram fazer café. Paulo colocou água para ferver
numa panela antiga, herança de uma tia. Martha, num gesto automático, tentou
alcançar a xícara mais alta do armário, apoiando-se numa cadeira. A cadeira
cedeu com um estalo seco. Martha caiu para trás, rindo antes mesmo de sentir
dor, e o riso se misturou a um grito breve quando a panela, traída pela
gravidade, virou-se inteira sobre ela.
A água fervente encontrou o corpo cruelmente. Paulo tentou
ajudá-la, escorregou no chão molhado, bateu a cabeça na quina da mesa. Por um
segundo, ambos ficaram imóveis. Martha ainda conseguiu dizer “que coisa
idiota”, com a voz já estranha, antes de o silêncio se impor.
Quando os vizinhos ouviram o barulho, era tarde demais para
heroísmos. O socorro chegou com sirene exagerada para um apartamento daquele
tipo. Os bombeiros tentaram manter a compostura diante da cena absurda: uma
panela no chão, café espalhado e duas xícaras intactas sobre a mesa. Martha foi
declarada morta ali mesmo, vítima de queimaduras graves e complicações
imediatas. Paulo, atordoado e com um corte na testa, repetia que só iam tomar
café.
A notícia chegou ao marido de Martha, Josefino, no início da
tarde, interrompendo uma reunião irrelevante. Ele largou tudo e correu para o
hospital, imaginando acidentes mais comuns, mais aceitáveis. No caminho, pensou
no filho, na mochila colorida, no beijo da manhã. Pensou que a vida era feita
de sustos, mas não de ironias tão elaboradas.
No hospital, as respostas vieram aos poucos. O policial
pediu documentos, fez perguntas neutras demais. Um endereço que não era o deles
surgiu na conversa como um erro. O marido franziu a testa. Por que Martha
estaria ali àquela hora? Disseram-lhe que havia um homem, um tal de Paulo, “um
amigo”. A palavra “amigo” caiu pesada e deslocada.
Foi ao apartamento. O elevador lento confirmou tudo antes
mesmo de a porta se abrir. O cheiro de café queimado ainda estava no ar. Sobre
a mesa, duas xícaras limpas. Na cozinha, a panela. No sofá, uma manta dobrada
com cuidado íntimo. Na estante, um porta-retrato virado para baixo. Não precisou
de confissão.
O marido sentou-se no sofá que rangia e riu. Foi um riso
curto, sem alegria, que mais parecia um soluço educado. Pensou em Martha feliz
naquela manhã, na pressa em deixar o filho na escola, no brilho estranho nos
olhos. Pensou que ela morrera exatamente no intervalo que inventara para viver
outra vida.
No velório, as pessoas repetiam frases prontas: “Uma
fatalidade”, “Ninguém espera”. O marido concordava com a cabeça, olhando para o
caixão fechado. Não contou a ninguém o que descobrira; guardou para si aquela
verdade torta, como se fosse uma piada que ninguém mais entenderia. Quando o
filho perguntou por que a mãe não voltaria para buscá-lo na escola, ele
respondeu que, às vezes, os adultos erram o caminho.
Na semana seguinte, Josefino levou o menino às aulas. Na
porta da escola, acenou com a mão pesada. A professora retribuiu o aceno, e ele
reparou a ausência de aliança na mão dela. Quando o portão se fechou, ficou ali
parado por alguns segundos a mais. Depois, virou-se e foi para casa, onde o
café esfriava na xícara única sobre a mesa. “Poderiam ser duas”, pensou ele,
decidindo ir levar o filho à escola todos os dias dali em diante.