sábado, 1 de agosto de 2026

CRÔNICA | Descanso como projeto de vida

Há um cansaço que deixou de ser individual. Basta sentar à mesa de um almoço, esperar o café ficar pronto ou acompanhar a conversa antes de uma reunião para ouvir a mesma fantasia: “Se eu pudesse, pararia hoje”. Não se trata de preguiça, como podem dizer os fiscais da moral alheia, e sim uma exaustão antiga, acumulada em planilhas, trânsito, metas, segundas-feiras e muitos sapos engolidos. O sonho compartilhado já não é um carro novo, uma casa maior ou uma promoção: é acordar numa terça-feira qualquer sem dar explicações ao relógio.

Curiosamente, este desejo encontra resistência entre muitos dos que já atravessaram mais décadas de trabalho. São eles que repetem, com convicção, que “quem para morre”, ou “o trabalho dignifica o homem”, ou ainda que “é preciso manter a mente ocupada”. Talvez, tenham razão em parte. O vazio também pesa, e a rotina pode ser um corrimão para muitos seres. Porém há uma diferença delicada entre continuar fazendo algo, porque isso dá sentido aos dias, e ser obrigado a fazê-lo, porque as contas a serem pagas não aceitam argumentos sem grana. 

Pode ser que o mal-entendido esteja na palavra “trabalho”. Pouca gente sonha em abandonar toda forma de atividade. O que se deseja abandonar é a obrigação permanente, a troca desigual entre tempo e sobrevivência e a sensação de que os melhores anos foram tirados. As pessoas imaginam cultivar um jardim, aprender a tocar violão, cozinhar sem pressa, cuidar dos netos, escrever um livro, ou simplesmente observar a chuva sem sentir culpa. Continuariam ocupadas, apenas deixariam de ser consumidas.

No fundo, esta conversa diz menos sobre aversão ao trabalho do que sobre fome de autonomia. Ninguém inveja o desemprego; inveja-se a liberdade de escolher o que fazer com a própria manhã. Talvez, as gerações mais velhas tenham aprendido que viver é trabalhar, enquanto as mais novas suspeitam que trabalhar não pode ser tudo o que viver significa. Seja como for, entre uma certeza e outra, seguimos batendo ponto, alimentando um sonho discreto e quase universal: o de que, um dia, o despertador toque apenas para lembrar que o sol nasceu, e não que o expediente começou.

 

ENGLISH VERSION | Rest as a life project

There is a kind of exhaustion that has ceased to be merely personal. All it takes is sitting down for lunch, waiting for the coffee to brew, or listening to the conversation before a meeting to hear the same fantasy: “If I could, I’d quit today.” This is not laziness, as the self-appointed guardians of other people’s morality might claim, but rather an old weariness accumulated through spreadsheets, traffic jams, deadlines, Mondays, and countless bitter pills swallowed. The shared dream is no longer a new car, a bigger house, or a promotion; it is waking up on an ordinary Tuesday with no need to justify oneself to the clock.

Curiously, this desire often meets resistance from those who have already spent more decades in the workforce. They are the ones who insist, with conviction, that “if you stop, you die,” or “work ennobles a person,” or even that “you have to keep your mind occupied.” Perhaps they are partly right. Emptiness can be burdensome as well, and routine can serve as a handrail for many people. Yet there is a subtle difference between continuing to do something because it gives meaning to one’s days and being forced to do it because the bills waiting to be paid do not accept arguments unsupported by money.

Perhaps the misunderstanding lies in the word “work.” Few people dream of giving up every form of activity. What they long to abandon is the permanent obligation, the unequal exchange between time and survival, and the feeling that their best years have been taken from them. They imagine tending a garden, learning to play the guitar, cooking without rushing, looking after their grandchildren, writing a book, or simply watching the rain without feeling guilty. They would still be busy; they would simply no longer be consumed.

At its core, this conversation is less about an aversion to work than about a hunger for autonomy. No one envies unemployment; what people envy is the freedom to choose what to do with their own morning. Perhaps the older generations learned that to live is to work, while the younger ones suspect that work cannot be all that living means. Be that as it may, somewhere between one certainty and the other, we keep punching the clock, nurturing a quiet and almost universal dream: that one day, the alarm clock will ring only to remind us that the sun has risen, not that the workday has begun.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

ARTIGO CIENTÍFICO | Cannabis?

Nunca sabemos quando seremos citados na internet, não é mesmo? Pode ser, inclusive, num trabalho sobre a cannabis... 😱

Leia o artigo completo de Fellype dos Santos Araujo, para o Instituto de Letras da Universidade de Brasília, clicando aqui.



quarta-feira, 1 de julho de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe os dois volumes de "Enquanto isso, em Santo Antônio...", do Grêmio Literário Patrulhense, gratuitamente


Volume 1 (2024) - contos

No início de 2024, o Grêmio Literário Patrulhense foi premiado por sua trajetória com recurso da Lei Paulo Gustavo. Ciente de sua responsabilidade sociocultural, o grupo criou um livro de contos em formato digital que, além de contar com textos dos membros da entidade, abriu espaço para jovens talentos locais, ou seja, alunos de Ensino Médio. Assim, nasceu o livro “Enquanto isso, em Santo Antônio…” com contos de 12 alunos de escolas públicas patrulhenses (Gregória de Mendonça, Patrulhense e Santo Antônio), além de outros 12 de integrantes do GLP. A temática pedida para os textos foi livre, desde que, de alguma forma, nossa querida Santo Antônio da Patrulha, aparecesse.

Leia a obra, clicando aqui.

Volume 2 (2025) - poemas

Em 2025, o GLP conseguiu recurso de um edital da Política Nacional Aldir Blanc. No segundo volume, elegemos o gênero lírico (o poema) para ser o centro das atenções, e o público escolhido foi aquele participante do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, o qual é vinculado ao CRAS – Centro de Referência em Assistência Social que, por sua vez, é um braço da Secretaria Municipal do Trabalho e Desenvolvimento Social. Logicamente, houve espaço aos integrantes do Grêmio Literário Patrulhense. O diferencial foi que, além da obra impressa e virtual, foi feita uma versão em áudio.

Leia o e-book, clicando aqui.

Ouça a obra, clicando aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

OPINION | The tyranny of notifications

The phone vibrates. Sometimes, it is an important message. Most of the time, it is not. Yet we interrupt conversations, look away from our books, or suspend our thoughts. We have become hostages to small electronic summons that appear at any moment, demanding immediate attention. Technology promised to bring us closer to the world, but in many ways, it has merely fragmented our ability to remain present.

There was a time when silence was part of everyday life. We waited for letters, returned phone calls, or news that arrived at its own pace. Today, even a delay of a few minutes can generate anxiety. The absence of notifications itself can feel unsettling, and the value of our days seems to depend on the number of alerts we receive. Meanwhile, those empty moments that once allowed us to observe, imagine, or reflect are quickly filled with yet another glance at a screen.

Perhaps, the greatest tyranny of notifications lies not in the sound they make, but in the power they exert over us. With every vibration, we surrender a little of our time and attention—two of the most valuable resources we possess. Could it be that true digital freedom consists not in responding more promptly to our devices, but in responding more thoughtfully to the life unfolding around us?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÔNICA | A tirania das notificações

O celular vibra. Às vezes, é uma mensagem importante. Na maioria das vezes, não. Ainda assim, interrompemos a conversa, desviamos o olhar do livro ou suspendemos o pensamento. Tornamo-nos reféns de pequenos chamados eletrônicos que surgem a qualquer hora, exigindo atenção imediata. A tecnologia prometeu nos aproximar do mundo, mas, em muitos momentos, apenas fragmentou nossa capacidade de permanecer presentes.

Houve um tempo em que o silêncio fazia parte da rotina. Esperávamos cartas, retornos telefônicos ou notícias que chegavam no seu próprio ritmo. Hoje, qualquer demora de alguns minutos pode gerar ansiedade. A ausência de notificações chega a causar estranhamento, e o valor de nossos dias parece depender da quantidade de alertas recebidos. Enquanto isso, os instantes vazios, que antes serviam para observar, imaginar ou refletir, são rapidamente preenchidos por mais uma olhada na tela.

Talvez, a maior tirania das notificações não esteja no som que elas produzem, mas sim no poder que exercem sobre nós. A cada vibração, cedemos um pouco do nosso tempo e da nossa atenção, dois dos recursos mais valiosos que possuímos. Será que a verdadeira liberdade digital não consiste em responder menos prontamente aos aparelhos e mais cuidadosamente à vida que acontece ao nosso redor?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O bom português nosso de cada dia

Tenho a alegria de apresentar minha nova apostila: "O bom português nosso de cada dia - Pequenas lições para uma comunicação elegante". É um material pensado para quem deseja falar e escrever melhor no dia a dia, de forma prática, leve e acessível.

Nesta apostila, você encontrará:

✔️ dicas rápidas de português;

✔️ explicações claras;

✔️ erros comuns da língua;

✔️ exercícios de fixação;

✔️ curiosidades linguísticas;

✔️ orientações para uma comunicação mais elegante e segura.

Tudo isso em uma linguagem simples, objetiva e agradável, porque pequenos ajustes nas palavras fazem grande diferença na maneira como nos comunicamos.

Material ideal para estudantes, professores, concurseiros e amantes da língua portuguesa.

Adquira a apostila clicando aqui.

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

CRÔNICA | Riscos psicossociais: uma realidade desprezada

Durante muito tempo, o trabalho foi romantizado como medida de dignidade, sucesso e virtude. Sofrer calado era sinônimo de comprometimento, enquanto o cansaço extremo ganhou nomes elegantes em inglês para parecer menos cruel. No meio dessa lógica adoecida, os riscos psicossociais foram tratados como exagero de gente fraca, embora estivessem presentes em corredores corporativos, repartições públicas, fábricas e escritórios climatizados. Hoje, finalmente, começa-se a reconhecer que pressão constante, humilhação, metas abusivas e ausência de descanso não são apenas desconfortos da rotina moderna, mas fatores reais de adoecimento físico e mental. A Portaria MTE nº 1.419/2024 atualizou a NR-1, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A mudança reforça que os riscos psicossociais também precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas, assim como riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

No setor privado, os riscos psicossociais costumam esconder-se atrás de discursos motivacionais e gráficos de produtividade. Há empresas que transformam a competição em método de gestão, estimulando jornadas intermináveis, disponibilidade permanente e uma cultura em que ninguém pode demonstrar cansaço. O trabalhador responde mensagens fora do expediente, participa de reuniões desnecessárias e aprende a sorrir enquanto a ansiedade se instala silenciosamente. Em muitos ambientes, o medo da demissão sustenta relações abusivas, fazendo com que o funcionário normalize situações absurdas apenas para manter o salário no fim do mês.

No setor público, embora a lógica seja diferente, os riscos psicossociais também se manifestam de forma intensa. A sobrecarga provocada pela falta de servidores, estruturas precárias, pressões políticas e burocracias intermináveis produz um desgaste contínuo em profissionais que lidam diariamente com demandas sociais complexas. Professores, profissionais da saúde, assistentes sociais e agentes de atendimento convivem com cobranças elevadas e reconhecimento escasso. Soma-se a isso um ambiente, muitas vezes, engessado, onde conflitos internos se prolongam sem solução, e a sensação de impotência se acumula lentamente. O serviço público carrega a contradição de exigir estabilidade emocional de trabalhadores submetidos a condições emocionalmente instáveis.

Reconhecer os riscos psicossociais é mais do que cumprir normas ou evitar processos judiciais. Trata-se de admitir que ambientes de trabalho podem adoecer pessoas de maneira profunda e duradoura. A nova atenção dada ao tema representa um avanço necessário, ainda que tardio. Afinal, produtividade construída sobre exaustão nunca foi sinal de eficiência, mas de negligência institucionalizada. Nenhuma sociedade se torna saudável quando trata sofrimento como requisito profissional. E, talvez, o maior desafio não seja criar leis, mas abandonar a velha cultura que confunde resistência ao abuso com mérito pessoal. Por isso, patrões e gestores, não adianta reclamar da quantidade de atestados médicos diante de um ambiente que vocês mesmos legitimam.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Aprenda a escrever dissertações


Por muitos anos, dei aulas em cursos preparatórios para concursos, nos quais, além de português, ensinei os alunos a escrever redações que os levaram a aprovações em concursos, vestibulares e no Enem. Agora, sintetizei meu método de ensino numa apostila simples, direta e prática, a qual, certamente, auxiliará você na escrita de ótimos textos. Chega de reprovar em concursos!

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

CRÔNICA | A vida para ontem

Sou da geração que teve que aprender a usar a internet, que teve que fazer faculdade presencial, mas que teve que se acostumar com a educação a distância para realizar as pós-graduações. Depois de mim, veio a geração que já nasceu num mundo com internet, que não soube como é viver sem o acesso a ela. E, mais recentemente, começaram a nascer criaturas num mundo já com inteligência artificial, onde tudo é relativamente fácil, o conhecimento não precisa ser armazenado, pois basta perguntar à IA como fazer tal coisa, onde tudo é para ontem.

Quando paro para pensar sobre essa evolução de gerações, às vezes, fico assustado. Como será o mercado de trabalho? Haverá aposentadoria? Faculdades ainda terão alunos? Crises de ansiedade serão três por dia? Tudo virou efêmero?

E, no meio dessas perguntas, lembro-me de quando esperar fazia parte da vida: esperar a conexão discada completar aquele chiado; esperar a resposta de uma carta que levava dias; esperar o professor chegar à sala, abrir o livro e, com calma, construir o raciocínio; esperar o filme e o cartucho de videogame retornarem às locadoras, etc. Havia um tempo entre o querer e o ter; e era nesse intervalo que nós aprendíamos mais do que imaginávamos.

Hoje, o intervalo desapareceu. A resposta vem antes mesmo da dúvida amadurecer. E isso, que parece tão eficiente, por vezes, soa como um silêncio estranho: não o silêncio da ausência, mas o da falta de profundidade. Porque saber fazer não é o mesmo que entender por que se faz. Muitos, atualmente, sequer leem o texto completo dado pela IA, não têm paciência.

É uma crítica com carinho. Afinal, cada geração carrega suas facilidades e seus fardos. Se antes lutávamos contra a falta de acesso, agora lutamos contra o excesso dele. Se antes o problema era encontrar informação, hoje é confiar nela. Mudam-se os obstáculos, porém a travessia continua.

Talvez, o mercado de trabalho mude tanto que nem reconheçamos seus contornos. Talvez, as faculdades se reinventem ou desapareçam como conhecemos. Talvez, a ansiedade apenas troque de nome e intensidade. Ou talvez, a essência humana dê um jeito de se adaptar, como sempre fez.

No fim das contas, nenhuma tecnologia conseguiu (ainda) substituir algo muito simples: o desconforto de não saber. É justamente desse desconforto que nascem as perguntas que realmente importam. Pode ser que o problema não seja a facilidade, mas sim o que estamos fazendo com ela.

P.S.: Vou continuar torcendo para que a Skynet nunca surja... Entendedores entenderão.

OPINION | Life for yesterday

I belong to the generation that had to learn how to use the internet, that had to attend college in person, but then had to adapt to distance education to complete postgraduate studies. After me came the generation that was born into a world with internet access, one that never knew what it was like to live without it. And more recently, “beings” have begun to be born into a world already shaped by artificial intelligence, where everything is relatively easy, where knowledge no longer needs to be stored because one can simply ask AI how to do something, where everything is needed for yesterday.

When I think about this evolution of generations, I sometimes feel uneasy. What will the job market look like? Will there be retirement? Will universities still have students? Will anxiety crises happen three times a day? Has everything become ephemeral?

And in the midst of these questions, I remember when waiting was part of life: waiting for the dial-up connection to complete that almost musical screech; waiting for the reply to a letter that took days; waiting for the teacher to arrive in the classroom, open the book, and calmly build a line of reasoning; waiting for a movie or a video game cartridge to return to the rental store, and so on. There was a time between wanting and having, and it was in that interval that we learned more than we realized.

Today, that interval has disappeared. The answer comes before the question has even had time to mature. And this, which seems so efficient, sometimes sounds like a strange silence, not the silence of absence, but of a lack of depth. Because knowing how to do something is not the same as understanding why it is done. Many people today do not even read the full text provided by AI; they simply do not have the patience.

It is a critique made with affection. After all, each generation carries its own conveniences and burdens. If before we struggled with lack of access, now we struggle with its excess. If before the problem was finding information, today it is trusting it. The obstacles change, but the journey continues.

Perhaps, the job market will change so much that we will no longer recognize its contours. Perhaps, universities will reinvent themselves or disappear as we know them. Perhaps, anxiety, this old acquaintance in new clothes, will simply change its name and intensity. Or perhaps, the human essence will find a way to adapt, as it always has.

In the end, no technology has yet managed to replace something very simple: the discomfort of not knowing. It is precisely from this discomfort that the questions that truly matter are born. It may be that the problem is not ease itself, but what we are doing with it.

P.S.: I will keep hoping that Skynet never comes into existence… Those who know know.