terça-feira, 26 de maio de 2026

CRÔNICA | Riscos psicossociais: uma realidade desprezada

Durante muito tempo, o trabalho foi romantizado como medida de dignidade, sucesso e virtude. Sofrer calado era sinônimo de comprometimento, enquanto o cansaço extremo ganhou nomes elegantes em inglês para parecer menos cruel. No meio dessa lógica adoecida, os riscos psicossociais foram tratados como exagero de gente fraca, embora estivessem presentes em corredores corporativos, repartições públicas, fábricas e escritórios climatizados. Hoje, finalmente, começa-se a reconhecer que pressão constante, humilhação, metas abusivas e ausência de descanso não são apenas desconfortos da rotina moderna, mas fatores reais de adoecimento físico e mental. A Portaria MTE nº 1.419/2024 atualizou a NR-1, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A mudança reforça que os riscos psicossociais também precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas, assim como riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

No setor privado, os riscos psicossociais costumam esconder-se atrás de discursos motivacionais e gráficos de produtividade. Há empresas que transformam a competição em método de gestão, estimulando jornadas intermináveis, disponibilidade permanente e uma cultura em que ninguém pode demonstrar cansaço. O trabalhador responde mensagens fora do expediente, participa de reuniões desnecessárias e aprende a sorrir enquanto a ansiedade se instala silenciosamente. Em muitos ambientes, o medo da demissão sustenta relações abusivas, fazendo com que o funcionário normalize situações absurdas apenas para manter o salário no fim do mês.

No setor público, embora a lógica seja diferente, os riscos psicossociais também se manifestam de forma intensa. A sobrecarga provocada pela falta de servidores, estruturas precárias, pressões políticas e burocracias intermináveis produz um desgaste contínuo em profissionais que lidam diariamente com demandas sociais complexas. Professores, profissionais da saúde, assistentes sociais e agentes de atendimento convivem com cobranças elevadas e reconhecimento escasso. Soma-se a isso um ambiente, muitas vezes, engessado, onde conflitos internos se prolongam sem solução, e a sensação de impotência se acumula lentamente. O serviço público carrega a contradição de exigir estabilidade emocional de trabalhadores submetidos a condições emocionalmente instáveis.

Reconhecer os riscos psicossociais é mais do que cumprir normas ou evitar processos judiciais. Trata-se de admitir que ambientes de trabalho podem adoecer pessoas de maneira profunda e duradoura. A nova atenção dada ao tema representa um avanço necessário, ainda que tardio. Afinal, produtividade construída sobre exaustão nunca foi sinal de eficiência, mas de negligência institucionalizada. Nenhuma sociedade se torna saudável quando trata sofrimento como requisito profissional. E, talvez, o maior desafio não seja criar leis, mas abandonar a velha cultura que confunde resistência ao abuso com mérito pessoal. Por isso, patrões e gestores, não adianta reclamar da quantidade de atestados médicos diante de um ambiente que vocês mesmos legitimam.

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