segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA | Ela disse que voltaria

Há dias em que o trabalho nos faz acreditar que já vimos de tudo. Todavia, sem pedir licença, a realidade aparece para provar o contrário. Recentemente, num Conselho Tutelar, uma avó chegou acompanhada dos dois netos, ambos ainda crianças. Disse que sairia apenas por alguns minutos para fumar um cigarro e voltaria em seguida. Uma frase tão comum que ninguém imaginaria o desfecho. Ela não voltou. Desapareceu. Não atendeu ao telefone, não foi, creio eu, sequer encontrada em casa. Enquanto isso, duas crianças perguntavam, com ingenuidade, onde estava a avó e por que ela estava demorando tanto.

A vida já havia sido dura com aqueles infantes. Estavam sob os cuidados da avó, porque a mãe, em outra cidade, se encontrava supostamente consumida pela dependência química. Ainda assim, talvez acreditassem que, apesar de tudo, havia um último porto seguro. Descobrir que até esse porto havia se desfeito é uma violência que nenhuma criança deveria experimentar. O abandono não aconteceu apenas na porta de um órgão público, aconteceu diante dos olhos de quem ainda esperava que um adulto cumprisse a promessa de voltar.

No fim daquela tarde, provavelmente, restou encaminhá-los para um serviço de acolhimento da região. É um lugar de proteção, sem dúvida, mas que não substitui o calor de um lar. A partir de então, o futuro dessas crianças se torna uma sequência de incertezas. Pode ser que encontrem uma família. Talvez, demore. Talvez, nunca aconteça. A realidade da adoção, infelizmente, costuma ser menos generosa com quem já deixou de ser bebê, pois o afeto parece ter prazo de validade.

Naquele dia, fui para casa pensando até onde pode chegar a fragilidade humana. Não para julgar aquela avó, cuja história, talvez, também seja feita de dores que desconheço, mas para lamentar uma sociedade em que o abandono parece se repetir de geração em geração, mudando apenas os personagens. Os Conselhos Tutelares existem para proteger crianças e continuarão cumprindo esse dever. Entretanto, dias como aquele lembram que proteger é remediar uma ferida que já foi aberta antes. E algumas cicatrizes, por mais que o Estado, a Justiça ou a boa vontade tentem alcançar, continuam pertencendo ao lado mais triste da alma.

Observação: Embora inspirada em situações observadas pelo autor ao longo de sua experiência profissional, personagens, circunstâncias e acontecimentos foram modificados ou combinados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

sábado, 1 de agosto de 2026

CRÔNICA | Descanso como projeto de vida

Há um cansaço que deixou de ser individual. Basta sentar à mesa de um almoço, esperar o café ficar pronto ou acompanhar a conversa antes de uma reunião para ouvir a mesma fantasia: “Se eu pudesse, pararia hoje”. Não se trata de preguiça, como podem dizer os fiscais da moral alheia, e sim uma exaustão antiga, acumulada em planilhas, trânsito, metas, segundas-feiras e muitos sapos engolidos. O sonho compartilhado já não é um carro novo, uma casa maior ou uma promoção: é acordar numa terça-feira qualquer sem dar explicações ao relógio.

Curiosamente, este desejo encontra resistência entre muitos dos que já atravessaram mais décadas de trabalho. São eles que repetem, com convicção, que “quem para morre”, ou “o trabalho dignifica o homem”, ou ainda que “é preciso manter a mente ocupada”. Talvez, tenham razão em parte. O vazio também pesa, e a rotina pode ser um corrimão para muitos seres. Porém há uma diferença delicada entre continuar fazendo algo, porque isso dá sentido aos dias, e ser obrigado a fazê-lo, porque as contas a serem pagas não aceitam argumentos sem grana. 

Pode ser que o mal-entendido esteja na palavra “trabalho”. Pouca gente sonha em abandonar toda forma de atividade. O que se deseja abandonar é a obrigação permanente, a troca desigual entre tempo e sobrevivência e a sensação de que os melhores anos foram tirados. As pessoas imaginam cultivar um jardim, aprender a tocar violão, cozinhar sem pressa, cuidar dos netos, escrever um livro, ou simplesmente observar a chuva sem sentir culpa. Continuariam ocupadas, apenas deixariam de ser consumidas.

No fundo, esta conversa diz menos sobre aversão ao trabalho do que sobre fome de autonomia. Ninguém inveja o desemprego; inveja-se a liberdade de escolher o que fazer com a própria manhã. Talvez, as gerações mais velhas tenham aprendido que viver é trabalhar, enquanto as mais novas suspeitam que trabalhar não pode ser tudo o que viver significa. Seja como for, entre uma certeza e outra, seguimos batendo ponto, alimentando um sonho discreto e quase universal: o de que, um dia, o despertador toque apenas para lembrar que o sol nasceu, e não que o expediente começou.

 

ENGLISH VERSION | Rest as a life project

There is a kind of exhaustion that has ceased to be merely personal. All it takes is sitting down for lunch, waiting for the coffee to brew, or listening to the conversation before a meeting to hear the same fantasy: “If I could, I’d quit today.” This is not laziness, as the self-appointed guardians of other people’s morality might claim, but rather an old weariness accumulated through spreadsheets, traffic jams, deadlines, Mondays, and countless bitter pills swallowed. The shared dream is no longer a new car, a bigger house, or a promotion; it is waking up on an ordinary Tuesday with no need to justify oneself to the clock.

Curiously, this desire often meets resistance from those who have already spent more decades in the workforce. They are the ones who insist, with conviction, that “if you stop, you die,” or “work ennobles a person,” or even that “you have to keep your mind occupied.” Perhaps they are partly right. Emptiness can be burdensome as well, and routine can serve as a handrail for many people. Yet there is a subtle difference between continuing to do something because it gives meaning to one’s days and being forced to do it because the bills waiting to be paid do not accept arguments unsupported by money.

Perhaps the misunderstanding lies in the word “work.” Few people dream of giving up every form of activity. What they long to abandon is the permanent obligation, the unequal exchange between time and survival, and the feeling that their best years have been taken from them. They imagine tending a garden, learning to play the guitar, cooking without rushing, looking after their grandchildren, writing a book, or simply watching the rain without feeling guilty. They would still be busy; they would simply no longer be consumed.

At its core, this conversation is less about an aversion to work than about a hunger for autonomy. No one envies unemployment; what people envy is the freedom to choose what to do with their own morning. Perhaps the older generations learned that to live is to work, while the younger ones suspect that work cannot be all that living means. Be that as it may, somewhere between one certainty and the other, we keep punching the clock, nurturing a quiet and almost universal dream: that one day, the alarm clock will ring only to remind us that the sun has risen, not that the workday has begun.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

ARTIGO CIENTÍFICO | Cannabis?

Nunca sabemos quando seremos citados na internet, não é mesmo? Pode ser, inclusive, num trabalho sobre a cannabis... 😱

Leia o artigo completo de Fellype dos Santos Araujo, para o Instituto de Letras da Universidade de Brasília, clicando aqui.



quarta-feira, 1 de julho de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe os dois volumes de "Enquanto isso, em Santo Antônio...", do Grêmio Literário Patrulhense, gratuitamente


Volume 1 (2024) - contos

No início de 2024, o Grêmio Literário Patrulhense foi premiado por sua trajetória com recurso da Lei Paulo Gustavo. Ciente de sua responsabilidade sociocultural, o grupo criou um livro de contos em formato digital que, além de contar com textos dos membros da entidade, abriu espaço para jovens talentos locais, ou seja, alunos de Ensino Médio. Assim, nasceu o livro “Enquanto isso, em Santo Antônio…” com contos de 12 alunos de escolas públicas patrulhenses (Gregória de Mendonça, Patrulhense e Santo Antônio), além de outros 12 de integrantes do GLP. A temática pedida para os textos foi livre, desde que, de alguma forma, nossa querida Santo Antônio da Patrulha, aparecesse.

Leia a obra, clicando aqui.

Volume 2 (2025) - poemas

Em 2025, o GLP conseguiu recurso de um edital da Política Nacional Aldir Blanc. No segundo volume, elegemos o gênero lírico (o poema) para ser o centro das atenções, e o público escolhido foi aquele participante do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, o qual é vinculado ao CRAS – Centro de Referência em Assistência Social que, por sua vez, é um braço da Secretaria Municipal do Trabalho e Desenvolvimento Social. Logicamente, houve espaço aos integrantes do Grêmio Literário Patrulhense. O diferencial foi que, além da obra impressa e virtual, foi feita uma versão em áudio.

Leia o e-book, clicando aqui.

Ouça a obra, clicando aqui.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

OPINION | The tyranny of notifications

The phone vibrates. Sometimes, it is an important message. Most of the time, it is not. Yet we interrupt conversations, look away from our books, or suspend our thoughts. We have become hostages to small electronic summons that appear at any moment, demanding immediate attention. Technology promised to bring us closer to the world, but in many ways, it has merely fragmented our ability to remain present.

There was a time when silence was part of everyday life. We waited for letters, returned phone calls, or news that arrived at its own pace. Today, even a delay of a few minutes can generate anxiety. The absence of notifications itself can feel unsettling, and the value of our days seems to depend on the number of alerts we receive. Meanwhile, those empty moments that once allowed us to observe, imagine, or reflect are quickly filled with yet another glance at a screen.

Perhaps, the greatest tyranny of notifications lies not in the sound they make, but in the power they exert over us. With every vibration, we surrender a little of our time and attention—two of the most valuable resources we possess. Could it be that true digital freedom consists not in responding more promptly to our devices, but in responding more thoughtfully to the life unfolding around us?

segunda-feira, 15 de junho de 2026

CRÔNICA | A tirania das notificações

O celular vibra. Às vezes, é uma mensagem importante. Na maioria das vezes, não. Ainda assim, interrompemos a conversa, desviamos o olhar do livro ou suspendemos o pensamento. Tornamo-nos reféns de pequenos chamados eletrônicos que surgem a qualquer hora, exigindo atenção imediata. A tecnologia prometeu nos aproximar do mundo, mas, em muitos momentos, apenas fragmentou nossa capacidade de permanecer presentes.

Houve um tempo em que o silêncio fazia parte da rotina. Esperávamos cartas, retornos telefônicos ou notícias que chegavam no seu próprio ritmo. Hoje, qualquer demora de alguns minutos pode gerar ansiedade. A ausência de notificações chega a causar estranhamento, e o valor de nossos dias parece depender da quantidade de alertas recebidos. Enquanto isso, os instantes vazios, que antes serviam para observar, imaginar ou refletir, são rapidamente preenchidos por mais uma olhada na tela.

Talvez, a maior tirania das notificações não esteja no som que elas produzem, mas sim no poder que exercem sobre nós. A cada vibração, cedemos um pouco do nosso tempo e da nossa atenção, dois dos recursos mais valiosos que possuímos. Será que a verdadeira liberdade digital não consiste em responder menos prontamente aos aparelhos e mais cuidadosamente à vida que acontece ao nosso redor?

segunda-feira, 1 de junho de 2026

O bom português nosso de cada dia

Tenho a alegria de apresentar minha nova apostila: "O bom português nosso de cada dia - Pequenas lições para uma comunicação elegante". É um material pensado para quem deseja falar e escrever melhor no dia a dia, de forma prática, leve e acessível.

Nesta apostila, você encontrará:

✔️ dicas rápidas de português;

✔️ explicações claras;

✔️ erros comuns da língua;

✔️ exercícios de fixação;

✔️ curiosidades linguísticas;

✔️ orientações para uma comunicação mais elegante e segura.

Tudo isso em uma linguagem simples, objetiva e agradável, porque pequenos ajustes nas palavras fazem grande diferença na maneira como nos comunicamos.

Material ideal para estudantes, professores, concurseiros e amantes da língua portuguesa.

Adquira a apostila clicando aqui.

 

terça-feira, 26 de maio de 2026

CRÔNICA | Riscos psicossociais: uma realidade desprezada

Durante muito tempo, o trabalho foi romantizado como medida de dignidade, sucesso e virtude. Sofrer calado era sinônimo de comprometimento, enquanto o cansaço extremo ganhou nomes elegantes em inglês para parecer menos cruel. No meio dessa lógica adoecida, os riscos psicossociais foram tratados como exagero de gente fraca, embora estivessem presentes em corredores corporativos, repartições públicas, fábricas e escritórios climatizados. Hoje, finalmente, começa-se a reconhecer que pressão constante, humilhação, metas abusivas e ausência de descanso não são apenas desconfortos da rotina moderna, mas fatores reais de adoecimento físico e mental. A Portaria MTE nº 1.419/2024 atualizou a NR-1, que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). A mudança reforça que os riscos psicossociais também precisam ser identificados, avaliados e gerenciados pelas empresas, assim como riscos físicos, químicos ou ergonômicos.

No setor privado, os riscos psicossociais costumam esconder-se atrás de discursos motivacionais e gráficos de produtividade. Há empresas que transformam a competição em método de gestão, estimulando jornadas intermináveis, disponibilidade permanente e uma cultura em que ninguém pode demonstrar cansaço. O trabalhador responde mensagens fora do expediente, participa de reuniões desnecessárias e aprende a sorrir enquanto a ansiedade se instala silenciosamente. Em muitos ambientes, o medo da demissão sustenta relações abusivas, fazendo com que o funcionário normalize situações absurdas apenas para manter o salário no fim do mês.

No setor público, embora a lógica seja diferente, os riscos psicossociais também se manifestam de forma intensa. A sobrecarga provocada pela falta de servidores, estruturas precárias, pressões políticas e burocracias intermináveis produz um desgaste contínuo em profissionais que lidam diariamente com demandas sociais complexas. Professores, profissionais da saúde, assistentes sociais e agentes de atendimento convivem com cobranças elevadas e reconhecimento escasso. Soma-se a isso um ambiente, muitas vezes, engessado, onde conflitos internos se prolongam sem solução, e a sensação de impotência se acumula lentamente. O serviço público carrega a contradição de exigir estabilidade emocional de trabalhadores submetidos a condições emocionalmente instáveis.

Reconhecer os riscos psicossociais é mais do que cumprir normas ou evitar processos judiciais. Trata-se de admitir que ambientes de trabalho podem adoecer pessoas de maneira profunda e duradoura. A nova atenção dada ao tema representa um avanço necessário, ainda que tardio. Afinal, produtividade construída sobre exaustão nunca foi sinal de eficiência, mas de negligência institucionalizada. Nenhuma sociedade se torna saudável quando trata sofrimento como requisito profissional. E, talvez, o maior desafio não seja criar leis, mas abandonar a velha cultura que confunde resistência ao abuso com mérito pessoal. Por isso, patrões e gestores, não adianta reclamar da quantidade de atestados médicos diante de um ambiente que vocês mesmos legitimam.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Aprenda a escrever dissertações


Por muitos anos, dei aulas em cursos preparatórios para concursos, nos quais, além de português, ensinei os alunos a escrever redações que os levaram a aprovações em concursos, vestibulares e no Enem. Agora, sintetizei meu método de ensino numa apostila simples, direta e prática, a qual, certamente, auxiliará você na escrita de ótimos textos. Chega de reprovar em concursos!

Para adquirir a apostila, clique aqui.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

CRÔNICA | A vida para ontem

Sou da geração que teve que aprender a usar a internet, que teve que fazer faculdade presencial, mas que teve que se acostumar com a educação a distância para realizar as pós-graduações. Depois de mim, veio a geração que já nasceu num mundo com internet, que não soube como é viver sem o acesso a ela. E, mais recentemente, começaram a nascer criaturas num mundo já com inteligência artificial, onde tudo é relativamente fácil, o conhecimento não precisa ser armazenado, pois basta perguntar à IA como fazer tal coisa, onde tudo é para ontem.

Quando paro para pensar sobre essa evolução de gerações, às vezes, fico assustado. Como será o mercado de trabalho? Haverá aposentadoria? Faculdades ainda terão alunos? Crises de ansiedade serão três por dia? Tudo virou efêmero?

E, no meio dessas perguntas, lembro-me de quando esperar fazia parte da vida: esperar a conexão discada completar aquele chiado; esperar a resposta de uma carta que levava dias; esperar o professor chegar à sala, abrir o livro e, com calma, construir o raciocínio; esperar o filme e o cartucho de videogame retornarem às locadoras, etc. Havia um tempo entre o querer e o ter; e era nesse intervalo que nós aprendíamos mais do que imaginávamos.

Hoje, o intervalo desapareceu. A resposta vem antes mesmo da dúvida amadurecer. E isso, que parece tão eficiente, por vezes, soa como um silêncio estranho: não o silêncio da ausência, mas o da falta de profundidade. Porque saber fazer não é o mesmo que entender por que se faz. Muitos, atualmente, sequer leem o texto completo dado pela IA, não têm paciência.

É uma crítica com carinho. Afinal, cada geração carrega suas facilidades e seus fardos. Se antes lutávamos contra a falta de acesso, agora lutamos contra o excesso dele. Se antes o problema era encontrar informação, hoje é confiar nela. Mudam-se os obstáculos, porém a travessia continua.

Talvez, o mercado de trabalho mude tanto que nem reconheçamos seus contornos. Talvez, as faculdades se reinventem ou desapareçam como conhecemos. Talvez, a ansiedade apenas troque de nome e intensidade. Ou talvez, a essência humana dê um jeito de se adaptar, como sempre fez.

No fim das contas, nenhuma tecnologia conseguiu (ainda) substituir algo muito simples: o desconforto de não saber. É justamente desse desconforto que nascem as perguntas que realmente importam. Pode ser que o problema não seja a facilidade, mas sim o que estamos fazendo com ela.

P.S.: Vou continuar torcendo para que a Skynet nunca surja... Entendedores entenderão.

OPINION | Life for yesterday

I belong to the generation that had to learn how to use the internet, that had to attend college in person, but then had to adapt to distance education to complete postgraduate studies. After me came the generation that was born into a world with internet access, one that never knew what it was like to live without it. And more recently, “beings” have begun to be born into a world already shaped by artificial intelligence, where everything is relatively easy, where knowledge no longer needs to be stored because one can simply ask AI how to do something, where everything is needed for yesterday.

When I think about this evolution of generations, I sometimes feel uneasy. What will the job market look like? Will there be retirement? Will universities still have students? Will anxiety crises happen three times a day? Has everything become ephemeral?

And in the midst of these questions, I remember when waiting was part of life: waiting for the dial-up connection to complete that almost musical screech; waiting for the reply to a letter that took days; waiting for the teacher to arrive in the classroom, open the book, and calmly build a line of reasoning; waiting for a movie or a video game cartridge to return to the rental store, and so on. There was a time between wanting and having, and it was in that interval that we learned more than we realized.

Today, that interval has disappeared. The answer comes before the question has even had time to mature. And this, which seems so efficient, sometimes sounds like a strange silence, not the silence of absence, but of a lack of depth. Because knowing how to do something is not the same as understanding why it is done. Many people today do not even read the full text provided by AI; they simply do not have the patience.

It is a critique made with affection. After all, each generation carries its own conveniences and burdens. If before we struggled with lack of access, now we struggle with its excess. If before the problem was finding information, today it is trusting it. The obstacles change, but the journey continues.

Perhaps, the job market will change so much that we will no longer recognize its contours. Perhaps, universities will reinvent themselves or disappear as we know them. Perhaps, anxiety, this old acquaintance in new clothes, will simply change its name and intensity. Or perhaps, the human essence will find a way to adapt, as it always has.

In the end, no technology has yet managed to replace something very simple: the discomfort of not knowing. It is precisely from this discomfort that the questions that truly matter are born. It may be that the problem is not ease itself, but what we are doing with it.

P.S.: I will keep hoping that Skynet never comes into existence… Those who know know.

terça-feira, 28 de abril de 2026

E-BOOK | Escreva melhor já!

Apresento-lhes um e-book bem simples, direto, eficaz e barato: "Gêneros Literários na Prática". Ele coloca, como o nome diz, a disciplina de Literatura em prática, saindo da pura teoria. Você (aluno, professor, escritor ou amante da leitura/escrita) será capaz de analisar e produzir textos facilmente com ele, eu prometo! Para quem não sabe, os gêneros literários são o lírico, o narrativo e o dramático. Na obra, há breves explicações sobre como eles são, bem como exercícios de análise e escrita de textos, isto é, as mãos vão à obra de fato.

Para adquirir o e-book, clique aqui.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Simples intrínseco" gratuitamente


Confesso que lírico não é meu gênero literário favorito. Por isso, tenho apenas um livro dedicado a textos assim, o qual foi lançado em 2014. Confesso, ainda, que, hoje, mais de 10 anos depois, eu não teria escrito alguns poemas da forma como ficaram no livro, o que é algo muito natural, já que envelhecemos e queremos aprimorar nossa escrita. Seja como for, disponibilizo-o gratuitamente a vocês, leitores.

Baixe a obra, clicando aqui.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

LITERATURA | Bate-papo sobre leitura e escrita


Recentemente, participei da atividade "Happy Hour com o Professor", na Escola Mundo Office, onde conversei com o professor Eduardo Fraga sobre literatura, leitura e escrita. Foi uma hora bem descontraída e com informações bem relevantes.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

CRÔNICA | A vulnerabilidade digital da terceira idade

Chamaram de avanço. De fato, é. A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente digital nasceu da urgência de proteger quem ainda está aprendendo a existir no mundo, agora também nas telas. Crianças precisam de cuidado, orientação, limites. Precisam de adultos por perto, inclusive no invisível das redes.

Mas, enquanto olhamos para os pequenos deslizando os dedos sobre telas coloridas, há outros dedos, mais lentos, mais hesitantes, tentando acompanhar um mundo que corre rápido demais. São mãos que já trabalharam décadas, que já escreveram cartas, assinaram papéis, apertaram outras mãos. Hoje, essas mesmas mãos recebem mensagens com links suspeitos, ligações urgentes, promessas de amor improvável.

O Brasil envelhece e, com ele, cresce a exposição de quem tem mais de 60 anos a uma nova forma de violência: a digital. Não é o assalto na esquina, não é o empurrão no ônibus. É algo mais silencioso: uma conversa gentil que vira golpe; um “bom dia” que termina em prejuízo; um “eu te amo” que custa caro demais; e por aí vai.

O Estatuto da Pessoa Idosa já nos ensinava, muito antes da internet dominar o cotidiano, que envelhecer é um direito (com dignidade, respeito e proteção). Porém, talvez, ainda não tenhamos entendido que essa proteção também precisa de Wi-Fi, precisa de informação acessível, de educação digital, de políticas públicas que enxerguem o idoso não como alguém “fora do sistema”, mas como alguém vulnerável dentro dele.

Enquanto ensinamos uma criança a não falar com estranhos na internet, quem ensina o idoso a desconfiar de quem fala bonito demais? Enquanto criamos mecanismos para proteger dados de jovens, quem protege a aposentadoria de quem confia?

A verdade é que o cuidado não pode ter idade limite. Não pode parar nos 18 anos. A vulnerabilidade muda de forma ao longo da vida, mas não desaparece. Às vezes, ela só troca de nome: deixa de ser “inocência” e passa a ser “confiança”.

É necessário ampliar nosso olhar e entender que proteger crianças no mundo digital é essencial, mas proteger idosos é urgente. Porque, no fim das contas, todos nós estamos atravessando o mesmo caminho. Só estamos em pontos diferentes dele. E, um dia, inevitavelmente, seremos nós do outro lado da tela.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

CRÔNICA | Ignorância é uma bênção?

Outro dia, entre uma aula e outra, uma aluna lançou uma fala que me deixou reflexivo: “Ignorância é uma bênção hoje em dia”. Disse isso com naturalidade, mas havia ali um peso que não se dissipava facilmente.

Fiquei a pensar no mundo que nos cerca, onde guerras são transmitidas quase em tempo real, discursos inflamados atravessam continentes, conflitos parecem não ter começo claro nem fim à vista, e por aí vai. Há dias em que abrir um portal de notícias é como mirar o caos. Não é exagero dizer que saber demais pode, sim, adoecer.

A informação, que um dia foi promessa de liberdade, virou um fardo também. Saber implica carregar. E carregar, às vezes, cansa. Quem acompanha tudo sente o peso das decisões políticas, das disputas de poder e das tragédias repetidas com pequenas variações. A mente não desliga; o coração não acompanha.

Nesse sentido, a ignorância parece oferecer um tipo estranho de conforto: quem não sabe não sofre da mesma forma; quem não acompanha dorme melhor. Há uma leveza em não se envolver com o que está distante, em não se responsabilizar emocionalmente por aquilo que foge ao nosso controle.

Mas, atenção, essa leveza tem um preço. Ignorar o mundo não o torna menos real. Os conflitos continuam, as decisões continuam sendo tomadas, as consequências continuam chegando, ainda que mais tarde e mais perto. A ignorância protege, mas também limita. Ela anestesia, mas também enfraquece.

Há uma diferença importante entre não saber e escolher como saber. Talvez, o problema não esteja na informação em si, porém na forma como nos relacionamos com ela. Consumir tudo o tempo todo, como se fosse possível dar conta do mundo inteiro, é receita certa para o esgotamento. Por outro lado, fechar os olhos completamente é abrir mão de compreender o próprio tempo.

Penso que, entre o excesso e a ausência, há um caminho mais difícil: o da consciência seletiva. Com ela, é possível informar-se, mas com critério; entender, mas sem se afogar; reconhecer os problemas do mundo sem permitir que eles destruam a capacidade de viver.

Ignorância pode até parecer uma bênção em dias mais pesados. No entanto, quiçá, não seja exatamente uma bênção, e sim um alívio temporário. E como alívio fácil, ela pode cobrar depois. No fim, não se trata de saber tudo ou nada saber. Trata-se de aprender a suportar o que se sabe e, principalmente, de decidir o que vale a pena carregar.

OPINION | Is ignorance a blessing?

The other day, between one class and another, a student made a remark that left me reflective: “Ignorance is a blessing nowadays.” She said it naturally, but there was a weight there that did not dissipate easily.

I found myself thinking about the world around us, where wars are broadcast almost in real time, heated speeches cross continents, conflicts seem to have neither a clear beginning nor an end in sight, and so on. There are days when opening a news portal feels like staring into chaos. It is no exaggeration to say that knowing too much can, indeed, make one ill.

Information, which was once a promise of freedom, has also become a burden. Knowing implies to carry. And carrying, at times, is exhausting. Those who follow everything feel the weight of political decisions, power disputes and tragedies repeated with slight variations. The mind does not switch off; the heart cannot keep up.

In this sense, ignorance seems to offer a strange kind of comfort: those who do not know do not suffer in the same way; those who do not follow sleep better. There is a lightness in not getting involved with what is distant, in not taking emotional responsibility for what lies beyond our control.

But, attention, this lightness comes at a price. Ignoring the world does not make it any less real. Conflicts continue, decisions continue to be made, consequences continue to arrive, even if later and closer. Ignorance protects, but it also limits. It numbs, but it also weakens.

There is an important difference between not knowing and choosing how to know. Perhaps the problem does not lie in information itself, but in the way we relate to it. Consuming everything all the time, as if it were possible to grasp the entire world, is a certain recipe for exhaustion. On the other hand, closing one’s eyes completely is to give up understanding one’s own time.

I think that, between excess and absence, there is a more difficult path: that one of selective awareness. With it, it is possible to stay informed, but with discernment; to understand, but without drowning; to recognize the world’s problems without allowing them to destroy the capacity to live.

Ignorance may even seem like a blessing on heavier days. However, perhaps it is not exactly a blessing, but rather a temporary relief. And like an easy relief, it may charge its price later. In the end, it is not about knowing everything or knowing nothing. It is about learning to bear what one knows and, above all, deciding what is worth carrying.

domingo, 8 de março de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Sequências" gratuitamente

Clique aqui para baixar a obra.

Sequências, a vida é feita delas. Damos sequência a algo que outros começaram, a coisas ruins que se perpetuam, a bondades que, às vezes, podem nos cansar e, também, damos continuidade a ações que nós mesmos fazemos consciente ou inconscientemente.

“Sequências” foi o título que eu, Marilani Bernardes e Rosalva Rocha, integrantes do Grêmio Literário Patrulhense, escolhemos para este livro, o qual se originou de exercícios literários da Pragmatha Editora, em 2022. São continuações ficcionais que, por vezes, espelham-se, em parte, em realidades vividas por nós ou por conhecidos nossos.

Sequências literárias… Foi isso que escrevemos. Uma literatura por demanda que demandou criatividade, brevidade e coragem.

domingo, 1 de março de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Sim, eu conto" gratuitamente

Lancei o livro de contos "Sim, eu conto" em 2024, na Feira do Livro de Santo Antônio da Patrulha. Ainda tenho alguns exemplares físicos à venda, mas penso ser a hora de compartilhar a obra gratuitamente com vocês, leitores.

Baixe o livro clicando aqui.

Sinara Foss, sobre o livro, escreveu: "A técnica usada na maioria de seus textos permite ao leitor vivenciar a narrativa através de ações, palavras, pensamentos, sentidos e sentimentos. O texto do Márnei Consul nos pega pela mão desde a primeira palavra e nos convida a fazer parte do enredo. Participamos de cada cena, espiamos, ouvimos os murmúrios dos personagens, queremos interferir, aconselhar, avisar... Não somos apenas meros leitores."

Eduardo Jablonski também escreveu sobre o livro: "Alguns contos, como 'Morangos', têm a característica do miniconto, pois convida o leitor a preencher 'o espaço entre a letra e o espírito, como dizia Roland Barthes. Se literatura é palavra rica em significação, segundo o conceito de Ezra Pound, sugerir mais do que vem no texto é prova de qualidade. Os 'morangos aqui podem, eventualmente, trazer alguma referência literária a 'Os morangos mofados', de Caio Fernando Abreu. Talvez, seja uma homenagem ou traga alguma simbologia a mais. 'Do nada' também é um miniconto e, pela sua concisão, aproxima-se da poesia com a figura de linguagem do desfecho: 'Colocou o primeiro pé na faixa de segurança, e o segundo no inferno...'".

domingo, 22 de fevereiro de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Rivais" gratuitamente


A série "Rivais" foi escrita por mim em três pequenas partes: "O estranho caso das rivais" (2015), "O intrigante jogo das rivais" (2016) e "O inevitável fim das rivais" (2017). Em 2019, tive a ideia de unir tais partes numa obra única, intitulada apenas "Rivais".

Sinopse:
Davi e sua mãe, Isabela, têm uma vida conturbada devido a uma doença incurável e a problemas inevitáveis de relacionamento. Embora sempre tentem recomeçar e ter uma vida tranquila, fantasmas do passado não permitem tais ações. Além disso, a ocorrência de uma morte desencadeia surtos terríveis.

Ficou curioso? Então, baixe a obra gratuitamente, clicando aqui.