domingo, 8 de março de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Sequências" gratuitamente

Clique aqui para baixar a obra.

Sequências, a vida é feita delas. Damos sequência a algo que outros começaram, a coisas ruins que se perpetuam, a bondades que, às vezes, podem nos cansar e, também, damos continuidade a ações que nós mesmos fazemos consciente ou inconscientemente.

“Sequências” foi o título que eu, Marilani Bernardes e Rosalva Rocha, integrantes do Grêmio Literário Patrulhense, escolhemos para este livro, o qual se originou de exercícios literários da Pragmatha Editora, em 2022. São continuações ficcionais que, por vezes, espelham-se, em parte, em realidades vividas por nós ou por conhecidos nossos.

Sequências literárias… Foi isso que escrevemos. Uma literatura por demanda que demandou criatividade, brevidade e coragem.

domingo, 1 de março de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Sim, eu conto" gratuitamente

Lancei o livro de contos "Sim, eu conto" em 2024, na Feira do Livro de Santo Antônio da Patrulha. Ainda tenho alguns exemplares físicos à venda, mas penso ser a hora de compartilhar a obra gratuitamente com vocês, leitores.

Baixe o livro clicando aqui.

Sinara Foss, sobre o livro, escreveu: "A técnica usada na maioria de seus textos permite ao leitor vivenciar a narrativa através de ações, palavras, pensamentos, sentidos e sentimentos. O texto do Márnei Consul nos pega pela mão desde a primeira palavra e nos convida a fazer parte do enredo. Participamos de cada cena, espiamos, ouvimos os murmúrios dos personagens, queremos interferir, aconselhar, avisar... Não somos apenas meros leitores."

Eduardo Jablonski também escreveu sobre o livro: "Alguns contos, como 'Morangos', têm a característica do miniconto, pois convida o leitor a preencher 'o espaço entre a letra e o espírito, como dizia Roland Barthes. Se literatura é palavra rica em significação, segundo o conceito de Ezra Pound, sugerir mais do que vem no texto é prova de qualidade. Os 'morangos aqui podem, eventualmente, trazer alguma referência literária a 'Os morangos mofados', de Caio Fernando Abreu. Talvez, seja uma homenagem ou traga alguma simbologia a mais. 'Do nada' também é um miniconto e, pela sua concisão, aproxima-se da poesia com a figura de linguagem do desfecho: 'Colocou o primeiro pé na faixa de segurança, e o segundo no inferno...'".

domingo, 22 de fevereiro de 2026

LITERATURA ACESSÍVEL | Baixe a obra "Rivais" gratuitamente


A série "Rivais" foi escrita por mim em três pequenas partes: "O estranho caso das rivais" (2015), "O intrigante jogo das rivais" (2016) e "O inevitável fim das rivais" (2017). Em 2019, tive a ideia de unir tais partes numa obra única, intitulada apenas "Rivais".

Sinopse:
Davi e sua mãe, Isabela, têm uma vida conturbada devido a uma doença incurável e a problemas inevitáveis de relacionamento. Embora sempre tentem recomeçar e ter uma vida tranquila, fantasmas do passado não permitem tais ações. Além disso, a ocorrência de uma morte desencadeia surtos terríveis.

Ficou curioso? Então, baixe a obra gratuitamente, clicando aqui.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CONTO | Volta às aulas

Na segunda-feira em que o filho voltou às aulas da educação infantil, Martha acordou antes do despertador. Não por amor à rotina, mas por alívio. Preparou o café com uma alegria doméstica quase indecente, cantarolando enquanto cortava o pão em fatias tortas. Vestiu o menino com cuidado excessivo: mochila pronta, lanche saudável e beijo na testa. Na porta da escola, acenou mais tempo do que o necessário. Quando o portão se fechou, respirou fundo: estava oficialmente livre por quatro horas.

Chamava aquilo de “tempo para si”, expressão que aprendera em postagens femininas e aplicava com rigor seletivo. Seu tempo para si tinha nome, cheiro de loção barata e o dom inconveniente de fazê-la rir das próprias mentiras: chamava-se Paulo e morava a sete quarteirões dali, num apartamento antigo com elevador lento e um sofá que rangia.

Martha chegou pontualmente como sempre. Tirou os sapatos, largou a bolsa no chão e beijou Paulo com a pressa de quem sabe que o relógio conspira contra. Riram de banalidades. Ela comentou que o filho adorara a professora nova; ele respondeu que o prédio estava com problemas no gás. Coisas pequenas, ditas entre um beijo e outro.

Depois, decidiram fazer café. Paulo colocou água para ferver numa panela antiga, herança de uma tia. Martha, num gesto automático, tentou alcançar a xícara mais alta do armário, apoiando-se numa cadeira. A cadeira cedeu com um estalo seco. Martha caiu para trás, rindo antes mesmo de sentir dor, e o riso se misturou a um grito breve quando a panela, traída pela gravidade, virou-se inteira sobre ela.

A água fervente encontrou o corpo cruelmente. Paulo tentou ajudá-la, escorregou no chão molhado, bateu a cabeça na quina da mesa. Por um segundo, ambos ficaram imóveis. Martha ainda conseguiu dizer “que coisa idiota”, com a voz já estranha, antes de o silêncio se impor.

Quando os vizinhos ouviram o barulho, era tarde demais para heroísmos. O socorro chegou com sirene exagerada para um apartamento daquele tipo. Os bombeiros tentaram manter a compostura diante da cena absurda: uma panela no chão, café espalhado e duas xícaras intactas sobre a mesa. Martha foi declarada morta ali mesmo, vítima de queimaduras graves e complicações imediatas. Paulo, atordoado e com um corte na testa, repetia que só iam tomar café.

A notícia chegou ao marido de Martha, Josefino, no início da tarde, interrompendo uma reunião irrelevante. Ele largou tudo e correu para o hospital, imaginando acidentes mais comuns, mais aceitáveis. No caminho, pensou no filho, na mochila colorida, no beijo da manhã. Pensou que a vida era feita de sustos, mas não de ironias tão elaboradas.

No hospital, as respostas vieram aos poucos. O policial pediu documentos, fez perguntas neutras demais. Um endereço que não era o deles surgiu na conversa como um erro. O marido franziu a testa. Por que Martha estaria ali àquela hora? Disseram-lhe que havia um homem, um tal de Paulo, “um amigo”. A palavra “amigo” caiu pesada e deslocada.

Foi ao apartamento. O elevador lento confirmou tudo antes mesmo de a porta se abrir. O cheiro de café queimado ainda estava no ar. Sobre a mesa, duas xícaras limpas. Na cozinha, a panela. No sofá, uma manta dobrada com cuidado íntimo. Na estante, um porta-retrato virado para baixo. Não precisou de confissão.

O marido sentou-se no sofá que rangia e riu. Foi um riso curto, sem alegria, que mais parecia um soluço educado. Pensou em Martha feliz naquela manhã, na pressa em deixar o filho na escola, no brilho estranho nos olhos. Pensou que ela morrera exatamente no intervalo que inventara para viver outra vida.

No velório, as pessoas repetiam frases prontas: “Uma fatalidade”, “Ninguém espera”. O marido concordava com a cabeça, olhando para o caixão fechado. Não contou a ninguém o que descobrira; guardou para si aquela verdade torta, como se fosse uma piada que ninguém mais entenderia. Quando o filho perguntou por que a mãe não voltaria para buscá-lo na escola, ele respondeu que, às vezes, os adultos erram o caminho.

Na semana seguinte, Josefino levou o menino às aulas. Na porta da escola, acenou com a mão pesada. A professora retribuiu o aceno, e ele reparou a ausência de aliança na mão dela. Quando o portão se fechou, ficou ali parado por alguns segundos a mais. Depois, virou-se e foi para casa, onde o café esfriava na xícara única sobre a mesa. “Poderiam ser duas”, pensou ele, decidindo ir levar o filho à escola todos os dias dali em diante.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

CRÔNICA | Juventude como obrigação moral

Há tempo, eu deveria ter escrito esta crônica, mas, como quase sempre, falta tempo para as coisas boas da vida. No entanto, agora em minhas pseudoférias (um dia, conto o porquê disso), acabei revendo o filme "A substância", com Demi Moore. Então, nasceu o texto.

Há um momento no filme em que fica claro que o terror não está no laboratório, nem na seringa, nem no espelho. O horror verdadeiro é social. É o contrato silencioso que assinamos sem ler, a saber: envelhecer, sim, mas discretamente. Preferencialmente, sem rugas, sem flacidez, sem sinais de que o tempo inconveniente passou por nós.

Demi Moore, a meu ver, não interpreta apenas uma personagem. Ela encarna um arquétipo contemporâneo: o corpo que vence enquanto obedece. Jovem, produtivo, desejável. Quando deixa de cumprir tais funções, passa a ser um problema a ser corrigido, otimizado e até substituído. Isso não é ficção científica.

Vivemos a era da juventude compulsória. Não basta ser competente, experiente ou inteligente. É preciso parecer tudo isso sem jamais parecer cansado. O cansaço envelhece. A maturidade pesa. A serenidade não viraliza na internet. O algoritmo prefere a pele esticada, o sorriso treinado e a energia artificial de quem ainda finge que acabou de começar seja lá o que for.

O envelhecimento, que já foi sinal de autoridade, virou falha de caráter. Rugas são lidas como descuido. Cabelos brancos, como desistência. O corpo maduro não inspira respeito, inspira pena. Ou pior: invisibilidade.

"A substância" expõe essa lógica com crueldade. A promessa é simples e obscena: você pode continuar relevante, desde que aceite se fragmentar. Uma versão sua para o mundo e outra descartável, escondida, envelhecendo em silêncio. Parece absurdo no cinema. Fora dele, isso tem sido chamado de gestão da imagem pessoal. E há profissionais que ganham bem para isso.

O mais perverso é que não se trata apenas de aparência. A juventude exigida hoje é estética, emocional e moral. Esperam-se entusiasmo eterno, flexibilidade infinita e adaptação sem luto. Envelhecer implica dizer “não”, estabelecer limites, recusar certas humilhações. Isso não combina com o mercado.

No fundo, o filme nos faz perguntas incômodas: até que ponto estamos dispostos a nos mutilar simbolicamente para continuar desejáveis? Quantas versões de nós mesmos já sacrificamos em nome de aceitação, curtidas, contratos, convites que só chegam enquanto aparentamos frescor?

Entretanto, o corpo envelhece. Isso é biologia. O problema é a sociedade que envelhece mal, apavorada com o espelho, incapaz de lidar com o tempo sem tentar burlá-lo. Se pensarmos bem, "A substância" não fala sobre juventude, fala sobre medo. E ele, ao contrário das rugas, não se disfarça com maquiagem.

E por falar em medo, eu é que tenho medo de perguntar aqui: você usariam a substância do filme? Não mintam! Podem me responder de forma privada.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CONTO | (Des)Harmonização

Ela tentou se desviar do tiro, mas ele acertou seu rosto em cheio. Instantes depois, ela estava de pé, olhando para seu corpo jogado ao chão, desesperada pelo fato de a harmonização facial ter sido em vão.