sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Retrospectiva 2025 em fotos
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
CRÔNICA | Fim do ano, ou fim do mundo?
A cada dezembro, acontece um fenômeno curioso, quase antropológico: as pessoas não encerram o ano, elas entram em colapso. O calendário avança um número e, de repente, a humanidade passa a se comportar como se estivesse evacuando o planeta.
Há pressa em tudo: no trânsito, nos mercados, nas farmácias, nos caixas eletrônicos e, principalmente, nas emoções. Todos parecem atrasados para algum compromisso invisível, como se o dia 31, à meia-noite, fosse acompanhado por uma sirene e um fiscal existencial, cobrando pendências da alma.
Os supermercados viram arenas. Carrinhos disputam território. Pessoas brigam por uvas passas. O frango natalino, coitado, é tratado como entidade sagrada: se acabar, acaba o ano junto.
Nas ruas, motoristas dirigem como se o asfalto fosse desaparecer em 48 horas. Não é pressa, é desespero. Setas são ignoradas, gentileza entra em recesso coletivo. Ninguém quer chegar rápido; quer fugir.
Na área afetiva, o surto é ainda mais sofisticado. Surge a urgência de rever pessoas que passaram o ano inteiro sendo ignoradas, enviar mensagens genéricas recheadas de votos grandiosos e promessas vagas de “ano novo, vida nova”. A esperança é terceirizada para o calendário, como se janeiro tivesse poderes terapêuticos (ou mágicos).
Há, também, o pânico das listas: metas não cumpridas, projetos abandonados, corpos não esculpidos, contas não pagas, livros não lidos, etc. Dezembro vira um tribunal, onde todos se condenam por não terem sido versões irreais de si mesmos. Há julgamento e culpa (muita).
No fundo, essa afobação não é sobre festas, compras ou retrospectivas: é medo. Medo de que o tempo esteja passando rápido demais e alguém esteja percebendo. Medo de encarar que a vida não se organiza sozinha, só porque o calendário muda. Medo de admitir que o ano acaba, sim, mas os problemas, hábitos e escolhas atravessam a fronteira sem pedir autorização.
Talvez, fosse mais honesto tratar o fim do ano como ele realmente é: apenas o fim de um ano, sem histeria, sem correria, sem encenação coletiva de que algo sobrenatural está prestes a acontecer. Aqui vai um "spoiler": não está.
O mundo não acaba no dia 31. Sua ansiedade também não. Ainda assim, caro leitor, desejo-lhe: boas festas...
domingo, 7 de dezembro de 2025
Retrospectiva literária 2025
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
CRÔNICA | Dezembro com outros assutos
Dezembro sempre me soa como um convidado que chega tarde, pede desculpas demais e, ainda assim, faz questão de reorganizar a sala inteira antes de ir embora. As pessoas, coitadas, embarcam na fantasia coletiva da retrospectiva (gênero literário um pouco cansado, que só serve para lembrar que o tempo passa rapidamente). Se o tempo urge, o que podemos escrever no último mês do ano, além do tradicional textão de retrospectiva? Nesta crônica, abordo algumas ideias de escrita, as quais servem como desafios literários.
Que tal escrever um manual de sobrevivência às festas de família? Algo elegante, engraçado, descrevendo “técnicas” para contornar parentes opinativos, sorrisos forçados, demora para a colocação da ceia, etc. Coisas do tipo: “Sorria, respire e lembre-se de que a ceia acaba, mas sua paciência, talvez, não”.
Ou, então, na falta de assunto mais nobre, é possível redigir uma carta para o “eu” que ainda não conheci. Não o idealizado, mas o possível. Esta versão futura que já terá (quiçá) aprendido a negar convites sem culpa, a escolher batalhas com economia e dar um tempo no sarcasmo quando o afeto exigir prioridade. Uma carta para lembrá-lo de que o futuro não precisa ser épico, apenas digno.
Há, ainda, a possiblidade de um elogio ao trivial, a uma coisa simples da vida, como fazer mais silêncio do que conversar em dadas situações, ao fato de ter um tempo para o café da manhã, ao bom convívio familiar e no trabalho (se isso existir), etc. Você não precisa agradecer apenas quando compra um carro, um casa, ou quando viaja para longe.
E, por fim, dezembro nos inspira a fazer um inventário afetivo do que não merecerá lugar no próximo ano. Nada dramático. Apenas uma triagem civilizada: hábitos obsoletos, expectativas com prazo vencido, conversas que não levam a lugar nenhum, tudo encaminhado para descarte com a delicadeza de quem agradece pelo serviço prestado e encerra o contrato.
No fim das contas, talvez, seja isso: enquanto o mundo insiste em recapitular o que já passou, pode ser preferível lapidar o que ainda pode vir. Sem fogos de artifício, sem autoajuda. Somente a honestidade possível, embrulhada num papel pardo de ironia. Afinal, dezembro não precisa ser um memorial: pode ser apenas um bom texto.
A propósito, adotei o formato “retrospectiva em fotos” há alguns anos. Depois do Natal, vou publicá-la aqui.














