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sexta-feira, 1 de maio de 2026

CRÔNICA | A vida para ontem

Sou da geração que teve que aprender a usar a internet, que teve que fazer faculdade presencial, mas que teve que se acostumar com a educação a distância para realizar as pós-graduações. Depois de mim, veio a geração que já nasceu num mundo com internet, que não soube como é viver sem o acesso a ela. E, mais recentemente, começaram a nascer criaturas num mundo já com inteligência artificial, onde tudo é relativamente fácil, o conhecimento não precisa ser armazenado, pois basta perguntar à IA como fazer tal coisa, onde tudo é para ontem.

Quando paro para pensar sobre essa evolução de gerações, às vezes, fico assustado. Como será o mercado de trabalho? Haverá aposentadoria? Faculdades ainda terão alunos? Crises de ansiedade serão três por dia? Tudo virou efêmero?

E, no meio dessas perguntas, lembro-me de quando esperar fazia parte da vida: esperar a conexão discada completar aquele chiado; esperar a resposta de uma carta que levava dias; esperar o professor chegar à sala, abrir o livro e, com calma, construir o raciocínio; esperar o filme e o cartucho de videogame retornarem às locadoras, etc. Havia um tempo entre o querer e o ter; e era nesse intervalo que nós aprendíamos mais do que imaginávamos.

Hoje, o intervalo desapareceu. A resposta vem antes mesmo da dúvida amadurecer. E isso, que parece tão eficiente, por vezes, soa como um silêncio estranho: não o silêncio da ausência, mas o da falta de profundidade. Porque saber fazer não é o mesmo que entender por que se faz. Muitos, atualmente, sequer leem o texto completo dado pela IA, não têm paciência.

É uma crítica com carinho. Afinal, cada geração carrega suas facilidades e seus fardos. Se antes lutávamos contra a falta de acesso, agora lutamos contra o excesso dele. Se antes o problema era encontrar informação, hoje é confiar nela. Mudam-se os obstáculos, porém a travessia continua.

Talvez, o mercado de trabalho mude tanto que nem reconheçamos seus contornos. Talvez, as faculdades se reinventem ou desapareçam como conhecemos. Talvez, a ansiedade apenas troque de nome e intensidade. Ou talvez, a essência humana dê um jeito de se adaptar, como sempre fez.

No fim das contas, nenhuma tecnologia conseguiu (ainda) substituir algo muito simples: o desconforto de não saber. É justamente desse desconforto que nascem as perguntas que realmente importam. Pode ser que o problema não seja a facilidade, mas sim o que estamos fazendo com ela.

P.S.: Vou continuar torcendo para que a Skynet nunca surja... Entendedores entenderão.

OPINION | Life for yesterday

I belong to the generation that had to learn how to use the internet, that had to attend college in person, but then had to adapt to distance education to complete postgraduate studies. After me came the generation that was born into a world with internet access, one that never knew what it was like to live without it. And more recently, “beings” have begun to be born into a world already shaped by artificial intelligence, where everything is relatively easy, where knowledge no longer needs to be stored because one can simply ask AI how to do something, where everything is needed for yesterday.

When I think about this evolution of generations, I sometimes feel uneasy. What will the job market look like? Will there be retirement? Will universities still have students? Will anxiety crises happen three times a day? Has everything become ephemeral?

And in the midst of these questions, I remember when waiting was part of life: waiting for the dial-up connection to complete that almost musical screech; waiting for the reply to a letter that took days; waiting for the teacher to arrive in the classroom, open the book, and calmly build a line of reasoning; waiting for a movie or a video game cartridge to return to the rental store, and so on. There was a time between wanting and having, and it was in that interval that we learned more than we realized.

Today, that interval has disappeared. The answer comes before the question has even had time to mature. And this, which seems so efficient, sometimes sounds like a strange silence, not the silence of absence, but of a lack of depth. Because knowing how to do something is not the same as understanding why it is done. Many people today do not even read the full text provided by AI; they simply do not have the patience.

It is a critique made with affection. After all, each generation carries its own conveniences and burdens. If before we struggled with lack of access, now we struggle with its excess. If before the problem was finding information, today it is trusting it. The obstacles change, but the journey continues.

Perhaps, the job market will change so much that we will no longer recognize its contours. Perhaps, universities will reinvent themselves or disappear as we know them. Perhaps, anxiety, this old acquaintance in new clothes, will simply change its name and intensity. Or perhaps, the human essence will find a way to adapt, as it always has.

In the end, no technology has yet managed to replace something very simple: the discomfort of not knowing. It is precisely from this discomfort that the questions that truly matter are born. It may be that the problem is not ease itself, but what we are doing with it.

P.S.: I will keep hoping that Skynet never comes into existence… Those who know know.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

CONTO | (Des)Harmonização

Ela tentou se desviar do tiro, mas ele acertou seu rosto em cheio. Instantes depois, ela estava de pé, olhando para seu corpo jogado ao chão, desesperada pelo fato de a harmonização facial ter sido em vão.

domingo, 7 de dezembro de 2025

Retrospectiva literária 2025


Pois é, mais um ano se vai, e mais umas publicações foram feitas por aqui. Então, é hora de relembrá-las e saber como acessá-las ou comprá-las.

1) Gêneros Literários na Prática: E-book que lancei em março sobre, obviamente, os três gêneros da literatura (narrativa, lírico e dramático). É ideal para quem quer se arriscar na escrita, mas ainda não sabe distinguir um texto do outro. Ideal também para alunos de literatura. Compre-o aqui.

2) Estudo sobre o Conselho Municipal de Cultura: Publiquei meu trabalho de conclusão da pós-graduação Gestão Pública Municipal. O título é "Democracia e Participação em Santo Antônio da Patrulha: análise da efetividade do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura". Curiosamente, depois da publicação, o conselho em tela teve mudanças em sua lei. Leia o trabalho gratuitamente, clicando aqui.

3) Enquanto isso, em Santo Antônio... - Volume 2: Livro organizado pelo Grêmio Literário Patrulhense, entidade que presidi até maio. Contém poemas de autores do GLP e de integrantes do Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da cidade. Obra social muito bacana, que pode ser ser lida e ouvida de graça, clicando-se aqui.

4) Desalmados: Terceiro livro de contos do coletivo de escritores Desautores, do qual faço parte. Obra sombria, misteriosa, sem piedade. Compre o e-book, clicando aqui e falando com Gilberto.

Fora as publicações oficiais, com ISBN, houve vários textos aqui no blog. Basta rolar a barra e lê-los.

É isso, gente. Haverá publicações em 2026?

sábado, 26 de abril de 2025

Estudo sobre o Conselho Municipal de Cultura

Em 2024, fiz uma pesquisa sobre a efetividade do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura de Santo Antônio da Patrulha/RS. Foi o trabalho de conclusão da pós-graduação Gestão Pública Municipal (FURG). Recentemente, houve a publicação deste artigo, que compartilho com vocês. Para lê-lo, clique aqui.




sexta-feira, 24 de março de 2023

OPINIÃO | This is us: um drama para (quase) chamar de nosso

Nas últimas semanas, eu até que tentei economizar, porém não consegui: devorei todas as seis temporadas da série americana This is us (disponível no Star Plus). Embora ela tenha iniciado em 2016, só tive contato com ela agora em 2023, depois que já tinha terminado.

Gente, posso dizer com toda a convicção: foi a melhor série que já vi na vida. Dificilmente, serei capaz de falar isso sobre uma outra. Mas por quê? Vou tentar explicar.

This is us é um drama que conta a estória da família Pearson. Do nada, Jack e Rebecca se veem pais de trigêmeos, sendo que um falece logo após o parto, sendo substituído, com o consenso deles, por um bebê negro que fora abandonado no mesmo dia. Isso ocorre no primeiro episódio, ou seja, já no início, a série prende o espectador.

Daí por diante, acompanhamos o desenvolver de todos os personagens, isto é, dos pais, dos três filhos, seus relacionamentos, suas frustrações, o que gostariam de ser na vida e não conseguiram, ou, então, o que não esperavam ser, a relação por vezes conturbada com cônjuges, afetos, tudo num vem-e-vai fascinante, conectando presente e passado a cada novo episódio.

Não há como não se identificar com as histórias. E o choro é livre nos capítulos. Quantos de nós, já com certa idade, passamos a repensar nossas vidas? O que temos hoje é o que planejamos no passado? Algum fato, no meio do trajeto, ocorreu e mudou tudo do nada? Qual o momento certo para transformar algo? Sobre essas e outras questões, somos capazes de refletir durante a série. É como se fosse uma sessão de terapia/análise a cada episódio.

Não sei quanto a vocês, mas eu, que já estou com ... anos de idade, comecei a remoer/relembrar/revisitar coisas do passado, buscando conexões com o presente, tentando programar um futuro. E não é bobice dizer que This is us me incentivou nesse sentido. Até terapia passei a fazer. Que coisa, né?

Fica a dica, então, a você que, por acaso, está à procura de alguma série inspiradora com conteúdo que, de fato, permeia a vida real. Uma pena que ela acabou, entretanto, a nossa vida continua, isto é, o drama dura, restando a nós dar um final (quiçá, feliz) a ele.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

LITERATURA | A importância do espaço no Naturalismo literário

Terminei minha última pós-graduação (Língua, Literatura e Ensino - FURG) no início de 2021. Dela, surgiu o artigo “A importância do espaço no Naturalismo literário”, o qual acaba de ser publicado em coletânea da Arco Editores. Fiquem à vontade para lê-lo, interessados em literatura. O link está aqui. É o capítulo 3.

No texto de apresentação, as organizadoras da obra escreveram o seguinte: “O terceiro capítulo, ‘A importância do espaço no Naturalismo literário’, de Márnei Consul, propõe refletir sobre os conceitos de espaço e ambiente. Para tal, analisa comparativamente as obras ‘O cortiço’, de Aluísio Azevedo, ‘O Ateneu’, de Raul Pompeia, e ‘Bom-Crioulo’, de Adolfo Caminha, a fim de considerar como o espaço condiciona as ações dos personagens e como atenção à essas categorias auxiliam o leitor no entendimento de obras de cunho naturalista.”

Boa leitura!

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

CRÍTICA | Divagando com Sissi e Sinara Foss


No final deste semestre, na disciplina "Literatura de Autoria Feminina", que integra a grade curricular da minha nova pós-graduação (Língua, Literatura e Ensino: Teoria e Prática, da FURG), fomos instigados a escrever um artigo sobre alguma autora. Claro que escolhi uma conterrânea: Sinara Foss. O foco da análise foi a coleção "Em busca de um mundo melhor", que conta as divagações e aventuras da cachorrinha Sissi. Confiram:

Mais do que encontro, literatura é a palavra artisticamente empregada. E isso a escritora gaúcha Sinara Foss faz com maestria. Conheço Sinara pessoalmente há, pelo menos, dez anos. No entanto, tive contato com suas obras antes disso. De seus escritos, os que mais me chamam a atenção são os cinco volumes da coleção “Em busca de um mundo melhor”, sobre os quais passo a discorrer.

Sinara Foss nasceu no interior de Santo Antônio da Patrulha, na localidade de Taquaral, em 1969. Escreve desde criança. Em 1996, lançou seu primeiro livro, “Memórias de um cachorro velho”. Por gostar muito de animais, além de vegetariana, ajuda a ONG Animal Shelter, sendo uma das fundadoras da mesma, em 2013. Sua paixão por animais, por certo, influencia sua produção literária que, por vezes, pode se confundir com literatura infantil apenas, mas não o é.

Em 2010, é lançado o livro “Divagações de Sissi”. A obra conta a história da cachorrinha Sissi e sua turma de cães e gatos que estão juntos em uma aventura que mescla diversão, crítica e um profundo respeito à vida. O primeiro livro da coleção “Em busca de um mundo melhor” tem como um dos objetivos o entretenimento, na medida em que foi escrita com uma linguagem descontraída, que agrada tanto adultos como adolescentes e, inclusive, crianças. Outra pilastra da obra é a promoção de consciência quanto à importância de se cuidar bem dos animais e do meio ambiente. O livro é escrito em primeira pessoa pela personagem Sissi, ou seja, há a personificação da cachorrinha. É um romance misturado com fábula. Vejamos um trecho:

As pessoas, ao julgarem os animais inferiores e que a única serventia é para serem comidos, usados em pesquisas ou usados como roupas, com seus couros e peles, estão fazendo como os nazistas, que tanto mal fizeram e que ainda hoje envergonham a humanidade por esse crime tão hediondo! Vocês sabem o que é hediondo? É algo grande, grande demais! (p. 56).

Como se nota, há referência a fato histórico que não é de conhecimento de tenra idade, o que mostra a possibilidade de leitura da obra pelo público adolescente e adulto.

A coleção continua com “Sissi e sua turma no futuro” (2011). A turma, agora, viaja para o futuro e depara-se com um mundo muito diferente. Neste novo romance, Foss levanta um tema importante e urgente: a preservação do meio ambiente e das espécies animais e vegetais. O livro deixa um questionamento grande ao leitor: que mundo estamos deixando para as futuras gerações?

No mesmo ano (2011), surge “As divagações continuam”. Nele, a narradora Sissi conta episódios divertidos de cães e gatos que conhecemos nos livros anteriores da série, ou seja, o tom é mais ameno. Todavia Sissi também fala sério e desabafa sobre assuntos importantes que a preocupam, como o abandono de animais e os maus tratos que eles sofrem todos os dias, daí a importância da posse responsável e da castração dos animais de estimação.

“Sissi na África” veio em 2012. A simpática turma desembarca na África, mais precisamente, em Kibera, a maior favela do mundo. O livro apresenta uma abordagem um pouco diferente dos anteriores, mas a mensagem é a mesma: que devemos nos colocar no lugar do próximo, seja ele de que raça, sexo, ou espécie for.

Por fim, anos depois, em 2016, Foss escreve o livro que mais me tocou: “O entardecer de Sissi”. Ela teve uma vida longa e rica; alegrou a família com quem viveu, os amigos que a conheceram pessoalmente ou apenas de longe, os leitores que foram tocados por sua história. Entretanto, chegou o momento de sua morte, tanto nos livros, como na vida real. Sim, os personagens personificados de Sinara Foss, de fato, existem ou existiram: Trata-se de seus bichinhos de estimação. O fim de Sissi é ilustrado por este trecho:

“Eu paro a luta por aqui, amigos. Não pensem com isso que desisti. Não. Não cansei de lutar. Se tivesse saúde, eu permaneceria aqui com vocês por muito mais tempo. Mas nosso corpo, diferente de nosso espírito, não é eterno. Minha hora está chegando, eu sei, eu sinto. Logo, muito em breve, sairei da vida e entrarei para a história” (p. 94).

O livro tocou-me não só como leitor, mas também como educador, eis que tive o prazer de abordá-lo em sala de aula quando trabalhei questões ambientais com meus alunos durante o já “extinto” Ensino Médio Politécnico, no Rio Grande do Sul. Perceber que se consegue fazer com que discentes leiam prazerosamente é algo fantástico, pois damos novo sentido à disciplina de Literatura na escola, não sendo a mesma apenas para períodos literários e classificações.

Além de ser uma voz feminina na literatura, Sinara Foss é uma voz pelos animais e pela educação ambiental, temas tão negligenciados no Brasil atual. Ela é representativa, e espero que seja mais ainda a partir de suas obras e de seu site (http://www.artistasgauchos.com.br/sinarafoss). Ler Foss é ter um encontro com a preocupação na vida futura. Literatura feminina, às vezes, é confundida somente com história de amor, fragilidade e submissão. Não é o que ocorre aqui.

Feminina, ambientalista, didática e significante: essas são minhas palavras para a literatura de Foss.

Referências

FOSS, Sinara. Divagações de Sissi. Porto Alegre: Pragmatha, 2010.
___________. Sissi e sua turma no futuro. Porto Alegre: Evangraf, 2011.
___________. As divagações continuam. Porto Alegre: Evangraf, 2011.
___________. Sissi na África. Porto Alegre: Evangraf, 2012.
___________. O entardecer de Sissi. Porto Alegre: Pragmatha, 2016.