quinta-feira, 1 de outubro de 2026

CONTO | A pessoa-troço

Em 2009, escrevi um poema muito pessimista/realista/verdadeiro intitulado “A pessoa”. Foi publicado no Caderno Literário Pragmatha e, em 2014, no meu livro “Simples intrínseco”. Anos depois, decidi transformá-lo num conto. Será que ficou bom? Poderia existir uma pessoa como a descrita no texto?

A pessoa-troço

Ninguém sabia exatamente quando ela havia chegado.

Pode ser que tivesse nascido. Pode ser que tivesse simplesmente aparecido, como coisa uma coisa que ninguém pediu: uma propaganda no meio do vídeo, uma cadeira no corredor ou uma opinião no grupo da família.

Ela não tinha opinião própria. Concordava com a última pessoa que falasse. Se alguém dissesse que o mundo estava acabando, ela perguntava se seria antes ou depois do almoço. Se outro afirmasse que tudo estava maravilhoso, ela sorria. Não por acreditar. Apenas porque sorrir parecia ser uma atividade de baixo risco.

Passava os dias diante do celular, deslizando o dedo pela tela com a dedicação de quem procura alguma coisa sem saber o quê. Via vídeos de gente que ela não conhecia, fazendo coisas que jamais faria. Curtia. Compartilhava. Esquecia.

Sua existência era uma sucessão de pequenas inutilidades.

Não trabalhava por paixão, não estudava por curiosidade, não ajudava por solidariedade. Fazia o mínimo necessário para continuar fazendo o mínimo necessário.

Um dia, alguém perguntou:

— Mas você não pensa em nada?

Ela pensou durante alguns segundos.

— Penso.

— No quê?

Ela olhou para o celular.

— Nada.

Foi, talvez, a resposta mais sincera de sua vida.

O problema é que ninguém percebeu.

Até que, numa manhã de terça-feira, ela morreu. Sem drama. Sem testemunhas. Sem última frase memorável. Simplesmente, deixou de respirar enquanto assistia a um vídeo de um sujeito, tentando abrir uma garrafa com um chinelo.

Quando encontraram seu corpo, chamaram a família. A mãe chorou. A irmã chorou.

Um vizinho, que mal a conhecia, disse:

— Era tão jovem...

No velório, fizeram discursos. Disseram que ela era uma pessoa especial. Que tinha um coração enorme. Que deixaria saudades. Que sua passagem pela Terra havia sido importante. Ela teria ficado emocionada, se pudesse ouvir.

No dia seguinte, descobriram um detalhe curioso: ninguém sabia qual era o seu nome completo. O documento estava vencido. As redes sociais tinham apelido. No trabalho, todos a chamavam apenas pelo sobrenome. Até a mãe precisou procurar uma certidão para confirmar.

Quando finalmente enterraram o corpo, o padre perguntou:

— Alguém gostaria de dizer algumas palavras?

Silêncio. Ninguém se levantou.

O padre insistiu:

— Qualquer coisa.

Silêncio novamente.

Então, o coveiro, já impaciente, pegou a pá e murmurou:

— Melhor assim. Pelo menos, não vai dar trabalho para tirar depois.

Foi a primeira vez que alguém disse algo verdadeiro sobre ela. Ironicamente, também foi a única coisa que ficou.