quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Você já se acostumou a viver cansado?

Você está cansado ou já se acostumou a viver cansado?

Vivemos com pressa, cobranças, notificações, excesso de trabalho, relações cada vez mais rápidas e a sensação de que nunca há tempo suficiente. "A sociedade cansada", minha nova apostila, reúne crônicas e reflexões sobre essa vida moderna que corre sem parar — e, ao final de cada texto, propõe perguntas para você olhar para a própria rotina.

E há mais: um teste de 15 perguntas para você descobrir em que nível está o seu cansaço diante das exigências da vida contemporânea.

Não é um manual de autoajuda. É um convite à pausa, à reflexão e, talvez, àquela pergunta incômoda: "Você está realmente vivendo ou apenas tentando dar conta de tudo?"

📚 "A sociedade cansada — Reflexões sobre a vida moderna" está disponível aqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

CRÔNICA | É possível sermos nós os mutantes?

Recentemente, reassisti a todos os filmes dos X-Men e, depois de atravessar outra vez escolas em ruínas, cidades destruídas e batalhas que parecem nunca terminar, fiquei com a sensação incômoda de que os mutantes, talvez, sejam menos ficção científica do que imaginamos. Afinal, a grande questão da franquia nunca foi exatamente o que acontece quando pessoas nascem com poderes extraordinários. O que sempre esteve no centro é o que acontece quando alguém é considerado diferente. Os mutantes são temidos, perseguidos, registrados, vigiados e, em alguns momentos, tratados como uma ameaça simplesmente porque não se encaixam naquilo que a maioria decidiu chamar de normal. E é aí que a fantasia dos X-Men deixe de ser fantasia.

Basta trocar algumas palavras: em vez de “mutante”, diga gay; em vez de “poderes”, diga cor da pele; em vez de “ameaça”, diga pobreza; em vez de “aberração”, diga qualquer característica que, ao longo da história, tenha servido de desculpa para colocar alguém do lado de fora. A humanidade tem uma criatividade impressionante para inventar categorias de gente que merece menos, pode menos, deve falar menos e, se possível, permanecer invisível. O curioso é que, nos filmes, os mutantes costumam ser perseguidos por aquilo que não escolheram ser. Na vida real, acontece algo parecido: pessoas negras não escolheram a cor da pele, pessoas gays não escolheram a orientação sexual, pessoas pobres, muitas vezes, não escolheram a pobreza. Ainda assim, há quem transforme essas características em sentença. 

Talvez, por isso, a divisão entre Professor Xavier e Magneto seja tão interessante: um acredita que seja possível conviver, dialogar, construir pontes entre diferentes; o outro, após experimentar na própria pele a violência da intolerância, conclui que não há convivência possível com quem deseja exterminá-lo. De certa maneira, os dois representam respostas humanas diante da exclusão: a esperança de que a sociedade possa aprender e a revolta de quem já cansou de esperar. E é impossível assistir a esses filmes sem perceber que a discussão continua atual. Quando uma sociedade diz a determinados grupos que eles precisam esconder quem são para serem aceitos, não está promovendo convivência. Está apenas exigindo que o diferente faça o esforço de parecer igual.

No fim, é possível que os X-Men sejam super-heróis justamente porque não deveriam precisar ser. Nenhuma pessoa deveria precisar de um superpoder para merecer respeito. Nenhum grupo deveria precisar provar que é útil, talentoso, produtivo ou extraordinário para ter direito à dignidade. A grande ironia da franquia é que os mutantes querem apenas aquilo que os seres humanos comuns, em tese, já deveriam saber oferecer: o direito de existir sem pedir desculpas pela própria existência. Reassistindo aos filmes tantos anos depois, percebi que os X-Men continuam lutando contra vilões, robôs, governos e catástrofes. Mas, quiçá, a batalha mais difícil continue sendo a de sempre: convencer uma sociedade apaixonada pela palavra igualdade de que igualdade não significa fazer todo mundo parecer igual, mas sim permitir que cada um possa ser quem é sem precisar se esconder.


ENGLISH VERSION | Could we be the mutants?

Recently, I rewatched all the X-Men films, and after once again making my way through ruined schools, destroyed cities, and battles that seem to have no end, I was left with the unsettling feeling that mutants may be less science fiction than we imagine. After all, the central question of the franchise has never really been what happens when people are born with extraordinary powers. What has always been at the heart of it is what happens when someone is considered different. Mutants are feared, persecuted, registered, monitored, and, at times, treated as a threat simply because they do not fit into what the majority has decided to call normal. And that is where the fantasy of the X-Men ceases to be fantasy.

It is enough to replace a few words: instead of “mutant,” say gay; instead of “powers,” say skin color; instead of “threat,” say poverty; instead of “freak,” say any characteristic that, throughout history, has been used as an excuse to place someone on the outside. Humanity has an impressive talent for inventing categories of people who deserve less, are allowed to do less, are expected to speak less, and, if possible, remain invisible. What is striking is that, in the films, mutants are usually persecuted for something they never chose to be. Something similar happens in real life: Black people did not choose the color of their skin, gay people did not choose their sexual orientation, and poor people often did not choose poverty. And yet there are those who turn these characteristics into a sentence.

Perhaps that is why the divide between Professor Xavier and Magneto is so compelling: one believes that it is possible to coexist, to engage in dialogue, to build bridges between different people; the other, having experienced the violence of intolerance firsthand, concludes that coexistence is impossible with those who seek to exterminate him. In a way, the two represent human responses to exclusion: the hope that society can learn, and the anger of those who have grown tired of waiting. And it is impossible to watch these films without realizing that the debate remains as relevant as ever. When a society tells certain groups that they must hide who they are in order to be accepted, it is not promoting coexistence. It is merely demanding that those who are different make the effort to appear the same.

In the end, it may be that the X-Men are superheroes precisely because they should never have needed to be. No one should need a superpower to deserve respect. No group should have to prove that it is useful, talented, productive, or extraordinary in order to have the right to dignity. The great irony of the franchise is that mutants want only what ordinary human beings, in theory, should already know how to offer: the right to exist without apologizing for their existence. Rewatching the films so many years later, I realized that the X-Men continue to fight villains, robots, governments, and catastrophes. But perhaps the most difficult battle remains the same as always: convincing a society in love with the word equality that equality does not mean making everyone look the same, but rather allowing each person to be who they are without having to hide.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

CRÔNICA | O nome da gente por aí

Há coisas que fazemos e esquecemos. Escrevemos um texto. Publicamo-lo. Entregamos um trabalho. Participamos de um livro. Mandamos um artigo para uma revista. Depois, a vida segue, até que, um dia, alguém resolve fazer algo banal: digitar o nome no Google. 

E foi isso que fiz. Digitei “Márnei Consul” e fiquei alguns minutos diante da tela, encontrando coisas que nem lembrava mais que tinha guardado. O nome estava por aí. Não apenas nas redes sociais, em notícias sobre lançamentos de livros ou em páginas que registram atividades literárias. Estava em lugares que, confesso, me deram uma alegria especial: trabalhos acadêmicos, dissertações, materiais de estudo, referências bibliográficas e textos utilizados para explicar aquilo que eu mesmo, no passado, tentei compreender.

Um dos primeiros encontros foi com “Os discursos direto e indireto à luz da enunciação”, artigo que publiquei na revista Ao Pé da Letra, da UFPE. Escrevi aquele trabalho quando ainda estava na graduação em Letras, na UNISINOS. Hoje, tantos anos depois, reencontro meu nome sendo recuperado em trabalhos acadêmicos e até em materiais utilizados para explicar justamente os discursos direto, indireto e indireto livre. De repente, aquilo que um dia foi uma tarefa acadêmica, deixou de ser apenas meu. Virou referência. E isso, talvez, seja uma das coisas mais bonitas que podem acontecer com um texto.

Também encontrei “Da inércia à possibilidade: os desafios da docência frente às questões de gênero e sexualidade”, escrito com Filipi Vieira Amorim e Júlia Guimarães Neves e publicado na Revista Ártemis. O artigo reaparece em trabalhos acadêmicos que continuam discutindo gênero, sexualidade, homossexualidade e escola. É bom pensar que uma reflexão escrita em determinado momento histórico pode ser retomada por alguém que vive outro momento histórico e ainda encontra nela alguma coisa que lhe serve.

Depois, apareceu “Homossexualidade na escola”, trabalho que também ultrapassou o espaço em que foi originalmente produzido e passou a ser utilizado como fonte em textos que discutem gênero, sexualidade e educação.

Há uma diferença enorme entre publicar algo e descobrir que alguém, em algum lugar, precisou disso. Publicar é lançar. Ser citado é descobrir que alguém encontrou.

Minha produção acadêmica também me levou novamente à Educação Ambiental, com o trabalho sobre uma experiência de formação continuada de professores. Descobri que ele aparece em pesquisa acadêmica posterior, inclusive como objeto de análise. É uma experiência peculiar: alguém não apenas leu o que você escreveu, mas decidiu parar diante daquilo e pensar sobre aquilo (metendo o bedelho às vezes).

Também reencontrei “A importância do espaço no Naturalismo literário”, trabalho que nasceu de uma especialização e, depois, foi publicado como capítulo no livro “Literatura, leitor e estética nas práticas literárias”.

Uma produção mais recente, “Democracia e participação em Santo Antônio da Patrulha: análise da efetividade do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Cultura”, publicada em 2025 no livro “Debates contemporâneos: temas interdisciplinares”, também surgiu. Gosto da ideia de que um texto sobre a cidade em que vivo possa, um dia, ser encontrado por alguém que esteja pesquisando participação social, políticas culturais ou democracia municipal.

E não foram apenas os textos acadêmicos (os chatos, como muitos os classificam). Uma busca pelo meu nome trouxe também meus livros, meus contos, minhas crônicas, antologias e trabalhos publicados pela Pragmatha Editora. Apareceram “Graças às desgraças”, “Do começo”, “Simples intrínseco”, a trilogia “Rivais”, etc. Apareceram, ainda, trabalhos como o “Guia de regras de Língua Portuguesa para escritores”, “Literatura brasileira: conhecimentos básicos e exercícios para escritores”, “Homossexualidade na escola” e “Educação: um olhar de professor”. Até “Uma definição de poesia”, texto publicado originalmente em 2009 no Recanto das Letras, continua circulando pela internet. Quase 17 mil leituras, segundo a página. De-zes-se-te! Bom número, não? Quantas dessas pessoas chegaram até o texto por acaso? Quantas gostaram dele? Quantas passaram os olhos rapidamente? Quantas, talvez, tenham levado alguma frase consigo? Nunca saberei.

O fascinante da internet é que ela nos devolve, anos depois, aquilo que acreditávamos ter deixado para trás: uma fotografia, uma entrevista, um livro, um artigo que você escreveu quando ainda era estudante e, às vezes, devolve seu próprio nome dentro da bibliografia de outra pessoa (CONSUL, Márnei). Para quem pesquisa, uma referência bibliográfica é apenas uma referência bibliográfica. Para quem escreveu, não. Aquele pequeno registro contém horas de leitura, dúvidas, erros, reescritas, inseguranças e a velha pergunta: será que alguém vai ler isso? Pois alguém leu. Inclusive usou.

Um dos sentidos mais bonitos da escrita é que a gente imagina que escreve para ser publicado. Depois, percebe que escreve para ser lido. E, muito mais tarde, descobre que existe uma etapa ainda mais interessante: escrever para ser lembrado por alguém que nem conhecemos.

Fazer uma busca pelo próprio nome pode parecer vaidade. E é, mas não só isso. Escavamos a internet e encontramos versões antigas de nós mesmos, como o estudante de Letras, o professor, o pesquisador, o sujeito jovem que publicou um artigo sobre enunciação, aquele que se aventurou pela Educação Ambiental, etc. No fim das contas, talvez seja isso que todo escritor secretamente espera: que, algum dia, alguém esteja procurando uma resposta e encontre uma frase nossa no caminho. Nesse momento, mesmo sem saber quem foi esse leitor, o escritor já ganhou. E, para quem não vive sem unir palavras escritas, não existe prêmio pequeno quando uma palavra nossa encontra alguém.

E você, já “deu um Google” no seu nome? Conte-me como foi.