Há dias em que o trabalho nos faz acreditar que já vimos de tudo. Todavia, sem pedir licença, a realidade aparece para provar o contrário. Recentemente, num Conselho Tutelar, uma avó chegou acompanhada dos dois netos, ambos ainda crianças. Disse que sairia apenas por alguns minutos para fumar um cigarro e voltaria em seguida. Uma frase tão comum que ninguém imaginaria o desfecho. Ela não voltou. Desapareceu. Não atendeu ao telefone, não foi, creio eu, sequer encontrada em casa. Enquanto isso, duas crianças perguntavam, com ingenuidade, onde estava a avó e por que ela estava demorando tanto.
A vida já havia sido dura com aqueles infantes. Estavam sob os cuidados da avó, porque a mãe, em outra cidade, se encontrava supostamente consumida pela dependência química. Ainda assim, talvez acreditassem que, apesar de tudo, havia um último porto seguro. Descobrir que até esse porto havia se desfeito é uma violência que nenhuma criança deveria experimentar. O abandono não aconteceu apenas na porta de um órgão público, aconteceu diante dos olhos de quem ainda esperava que um adulto cumprisse a promessa de voltar.
No fim daquela tarde, provavelmente, restou encaminhá-los para um serviço de acolhimento da região. É um lugar de proteção, sem dúvida, mas que não substitui o calor de um lar. A partir de então, o futuro dessas crianças se torna uma sequência de incertezas. Pode ser que encontrem uma família. Talvez, demore. Talvez, nunca aconteça. A realidade da adoção, infelizmente, costuma ser menos generosa com quem já deixou de ser bebê, pois o afeto parece ter prazo de validade.
Naquele dia, fui para casa pensando até onde pode chegar a fragilidade humana. Não para julgar aquela avó, cuja história, talvez, também seja feita de dores que desconheço, mas para lamentar uma sociedade em que o abandono parece se repetir de geração em geração, mudando apenas os personagens. Os Conselhos Tutelares existem para proteger crianças e continuarão cumprindo esse dever. Entretanto, dias como aquele lembram que proteger é remediar uma ferida que já foi aberta antes. E algumas cicatrizes, por mais que o Estado, a Justiça ou a boa vontade tentem alcançar, continuam pertencendo ao lado mais triste da alma.
Observação: Embora inspirada em situações observadas pelo autor ao longo de sua experiência profissional, personagens, circunstâncias e acontecimentos foram modificados ou combinados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

Chorando aqui, enquanto mãe, pensando no sofrimento destas crianças, e no quão dura tem sido a realidade de tantas outras... 😭
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirEu não sou tão generosa. Teu relato me abriu um rombo no estômago. Não consigo justificar o abandono. A humanidade adoeceu, livram-se das pessoas como se fossem panos velhos, sem serventia. Triste demais!
ResponderExcluirCris, nós, como professores, já vimos muito, né?
ExcluirCaramba…. Li tua crônica minutos depois de publicar uma história comovente do Pilha… teria sido coincidência…?!
ResponderExcluirLuís Menna Barreto.