segunda-feira, 10 de agosto de 2026

CRÔNICA | Ela disse que voltaria

Há dias em que o trabalho nos faz acreditar que já vimos de tudo. Todavia, sem pedir licença, a realidade aparece para provar o contrário. Recentemente, num Conselho Tutelar, uma avó chegou acompanhada dos dois netos, ambos ainda crianças. Disse que sairia apenas por alguns minutos para fumar um cigarro e voltaria em seguida. Uma frase tão comum que ninguém imaginaria o desfecho. Ela não voltou. Desapareceu. Não atendeu ao telefone, não foi, creio eu, sequer encontrada em casa. Enquanto isso, duas crianças perguntavam, com ingenuidade, onde estava a avó e por que ela estava demorando tanto.

A vida já havia sido dura com aqueles infantes. Estavam sob os cuidados da avó, porque a mãe, em outra cidade, se encontrava supostamente consumida pela dependência química. Ainda assim, talvez acreditassem que, apesar de tudo, havia um último porto seguro. Descobrir que até esse porto havia se desfeito é uma violência que nenhuma criança deveria experimentar. O abandono não aconteceu apenas na porta de um órgão público, aconteceu diante dos olhos de quem ainda esperava que um adulto cumprisse a promessa de voltar.

No fim daquela tarde, provavelmente, restou encaminhá-los para um serviço de acolhimento da região. É um lugar de proteção, sem dúvida, mas que não substitui o calor de um lar. A partir de então, o futuro dessas crianças se torna uma sequência de incertezas. Pode ser que encontrem uma família. Talvez, demore. Talvez, nunca aconteça. A realidade da adoção, infelizmente, costuma ser menos generosa com quem já deixou de ser bebê, pois o afeto parece ter prazo de validade.

Naquele dia, fui para casa pensando até onde pode chegar a fragilidade humana. Não para julgar aquela avó, cuja história, talvez, também seja feita de dores que desconheço, mas para lamentar uma sociedade em que o abandono parece se repetir de geração em geração, mudando apenas os personagens. Os Conselhos Tutelares existem para proteger crianças e continuarão cumprindo esse dever. Entretanto, dias como aquele lembram que proteger é remediar uma ferida que já foi aberta antes. E algumas cicatrizes, por mais que o Estado, a Justiça ou a boa vontade tentem alcançar, continuam pertencendo ao lado mais triste da alma.

Observação: Embora inspirada em situações observadas pelo autor ao longo de sua experiência profissional, personagens, circunstâncias e acontecimentos foram modificados ou combinados para preservar a identidade das pessoas envolvidas.

sábado, 1 de agosto de 2026

CRÔNICA | Descanso como projeto de vida

Há um cansaço que deixou de ser individual. Basta sentar à mesa de um almoço, esperar o café ficar pronto ou acompanhar a conversa antes de uma reunião para ouvir a mesma fantasia: “Se eu pudesse, pararia hoje”. Não se trata de preguiça, como podem dizer os fiscais da moral alheia, e sim uma exaustão antiga, acumulada em planilhas, trânsito, metas, segundas-feiras e muitos sapos engolidos. O sonho compartilhado já não é um carro novo, uma casa maior ou uma promoção: é acordar numa terça-feira qualquer sem dar explicações ao relógio.

Curiosamente, este desejo encontra resistência entre muitos dos que já atravessaram mais décadas de trabalho. São eles que repetem, com convicção, que “quem para morre”, ou “o trabalho dignifica o homem”, ou ainda que “é preciso manter a mente ocupada”. Talvez, tenham razão em parte. O vazio também pesa, e a rotina pode ser um corrimão para muitos seres. Porém há uma diferença delicada entre continuar fazendo algo, porque isso dá sentido aos dias, e ser obrigado a fazê-lo, porque as contas a serem pagas não aceitam argumentos sem grana. 

Pode ser que o mal-entendido esteja na palavra “trabalho”. Pouca gente sonha em abandonar toda forma de atividade. O que se deseja abandonar é a obrigação permanente, a troca desigual entre tempo e sobrevivência e a sensação de que os melhores anos foram tirados. As pessoas imaginam cultivar um jardim, aprender a tocar violão, cozinhar sem pressa, cuidar dos netos, escrever um livro, ou simplesmente observar a chuva sem sentir culpa. Continuariam ocupadas, apenas deixariam de ser consumidas.

No fundo, esta conversa diz menos sobre aversão ao trabalho do que sobre fome de autonomia. Ninguém inveja o desemprego; inveja-se a liberdade de escolher o que fazer com a própria manhã. Talvez, as gerações mais velhas tenham aprendido que viver é trabalhar, enquanto as mais novas suspeitam que trabalhar não pode ser tudo o que viver significa. Seja como for, entre uma certeza e outra, seguimos batendo ponto, alimentando um sonho discreto e quase universal: o de que, um dia, o despertador toque apenas para lembrar que o sol nasceu, e não que o expediente começou.

 

ENGLISH VERSION | Rest as a life project

There is a kind of exhaustion that has ceased to be merely personal. All it takes is sitting down for lunch, waiting for the coffee to brew, or listening to the conversation before a meeting to hear the same fantasy: “If I could, I’d quit today.” This is not laziness, as the self-appointed guardians of other people’s morality might claim, but rather an old weariness accumulated through spreadsheets, traffic jams, deadlines, Mondays, and countless bitter pills swallowed. The shared dream is no longer a new car, a bigger house, or a promotion; it is waking up on an ordinary Tuesday with no need to justify oneself to the clock.

Curiously, this desire often meets resistance from those who have already spent more decades in the workforce. They are the ones who insist, with conviction, that “if you stop, you die,” or “work ennobles a person,” or even that “you have to keep your mind occupied.” Perhaps they are partly right. Emptiness can be burdensome as well, and routine can serve as a handrail for many people. Yet there is a subtle difference between continuing to do something because it gives meaning to one’s days and being forced to do it because the bills waiting to be paid do not accept arguments unsupported by money.

Perhaps the misunderstanding lies in the word “work.” Few people dream of giving up every form of activity. What they long to abandon is the permanent obligation, the unequal exchange between time and survival, and the feeling that their best years have been taken from them. They imagine tending a garden, learning to play the guitar, cooking without rushing, looking after their grandchildren, writing a book, or simply watching the rain without feeling guilty. They would still be busy; they would simply no longer be consumed.

At its core, this conversation is less about an aversion to work than about a hunger for autonomy. No one envies unemployment; what people envy is the freedom to choose what to do with their own morning. Perhaps the older generations learned that to live is to work, while the younger ones suspect that work cannot be all that living means. Be that as it may, somewhere between one certainty and the other, we keep punching the clock, nurturing a quiet and almost universal dream: that one day, the alarm clock will ring only to remind us that the sun has risen, not that the workday has begun.