Sou da geração que teve que aprender a usar a internet, que
teve que fazer faculdade presencial, mas que teve que se acostumar com a
educação a distância para realizar as pós-graduações. Depois de mim, veio a
geração que já nasceu num mundo com internet, que não soube como é viver sem o
acesso a ela. E, mais recentemente, começaram a nascer criaturas num mundo já
com inteligência artificial, onde tudo é relativamente fácil, o conhecimento
não precisa ser armazenado, pois basta perguntar à IA como fazer tal coisa,
onde tudo é para ontem.
Quando paro para pensar sobre essa evolução de gerações, às
vezes, fico assustado. Como será o mercado de trabalho? Haverá aposentadoria?
Faculdades ainda terão alunos? Crises de ansiedade serão três por dia? Tudo
virou efêmero?
E, no meio dessas perguntas, lembro-me de quando esperar
fazia parte da vida: esperar a conexão discada completar aquele chiado; esperar
a resposta de uma carta que levava dias; esperar o professor chegar à sala,
abrir o livro e, com calma, construir o raciocínio; esperar o filme e o
cartucho de videogame retornarem às locadoras, etc. Havia um tempo entre o
querer e o ter; e era nesse intervalo que nós aprendíamos mais do que imaginávamos.
Hoje, o intervalo desapareceu. A resposta vem antes mesmo da
dúvida amadurecer. E isso, que parece tão eficiente, por vezes, soa como um
silêncio estranho: não o silêncio da ausência, mas o da falta de profundidade.
Porque saber fazer não é o mesmo que entender por que se faz. Muitos,
atualmente, sequer leem o texto completo dado pela IA, não têm paciência.
É uma crítica com carinho. Afinal, cada geração carrega suas
facilidades e seus fardos. Se antes lutávamos contra a falta de acesso, agora
lutamos contra o excesso dele. Se antes o problema era encontrar informação,
hoje é confiar nela. Mudam-se os obstáculos, porém a travessia continua.
Talvez, o mercado de trabalho mude tanto que nem
reconheçamos seus contornos. Talvez, as faculdades se reinventem ou desapareçam
como conhecemos. Talvez, a ansiedade apenas troque de nome e intensidade. Ou talvez, a essência humana dê um jeito
de se adaptar, como sempre fez.
No fim das contas, nenhuma tecnologia conseguiu (ainda)
substituir algo muito simples: o desconforto de não saber. É justamente desse
desconforto que nascem as perguntas que realmente importam. Pode ser que o
problema não seja a facilidade, mas sim o que estamos fazendo com ela.
P.S.: Vou continuar torcendo para que a Skynet nunca
surja... Entendedores entenderão.