Outro dia, entre uma aula e outra, uma aluna lançou uma fala que me deixou reflexivo: “Ignorância é uma bênção hoje em dia”. Disse isso com naturalidade, mas havia ali um peso que não se dissipava facilmente.
Fiquei a pensar no mundo que nos cerca, onde guerras são transmitidas quase em tempo real, discursos inflamados atravessam continentes, conflitos parecem não ter começo claro nem fim à vista, e por aí vai. Há dias em que abrir um portal de notícias é como mirar o caos. Não é exagero dizer que saber demais pode, sim, adoecer.
A informação, que um dia foi promessa de liberdade, virou um fardo também. Saber implica carregar. E carregar, às vezes, cansa. Quem acompanha tudo sente o peso das decisões políticas, das disputas de poder e das tragédias repetidas com pequenas variações. A mente não desliga; o coração não acompanha.
Nesse sentido, a ignorância parece oferecer um tipo estranho de conforto: quem não sabe não sofre da mesma forma; quem não acompanha dorme melhor. Há uma leveza em não se envolver com o que está distante, em não se responsabilizar emocionalmente por aquilo que foge ao nosso controle.
Mas, atenção, essa leveza tem um preço. Ignorar o mundo não o torna menos real. Os conflitos continuam, as decisões continuam sendo tomadas, as consequências continuam chegando, ainda que mais tarde e mais perto. A ignorância protege, mas também limita. Ela anestesia, mas também enfraquece.
Há uma diferença importante entre não saber e escolher como saber. Talvez, o problema não esteja na informação em si, porém na forma como nos relacionamos com ela. Consumir tudo o tempo todo, como se fosse possível dar conta do mundo inteiro, é receita certa para o esgotamento. Por outro lado, fechar os olhos completamente é abrir mão de compreender o próprio tempo.
Penso que, entre o excesso e a ausência, há um caminho mais difícil: o da consciência seletiva. Com ela, é possível informar-se, mas com critério; entender, mas sem se afogar; reconhecer os problemas do mundo sem permitir que eles destruam a capacidade de viver.
Ignorância pode até parecer uma bênção em dias mais pesados. No entanto, quiçá, não seja exatamente uma bênção, e sim um alívio temporário. E como alívio fácil, ela pode cobrar depois. No fim, não se trata de saber tudo ou nada saber. Trata-se de aprender a suportar o que se sabe e, principalmente, de decidir o que vale a pena carregar.

Perfeito! O difícil caminho da consciência coletiva é o que tento manter. Tomar conhecimento das noticias diárias em pequenas pílulas, sempre alternando com momentos de alienação divertida, vídeos de fofos filhotes.
ResponderExcluirÉ isso aí, Luciana.
ExcluirA ignorância prá mim é a pior doença. Sei o quanto pesa buscar o equilíbrio, mas se faz necessário. Qualquer extremo é danoso. Muito boa reflexão.
ResponderExcluirPorém equilíbrio, num mundo digital, tem sido difícil.
ExcluirMuito boa a tua crônica, Márnei!
ResponderExcluirEu complementaridade, como se isso precisasse, dizendo que, muitas vezes, a ignorância é uma escolha. São pessoas acomodadas, que querem viver, aleatoriamente, não querendo se envolver com a realidade. Até acredito que vivem melhor, porém, não fazem o meu tipo.
Elita Portal
De fato, muitas vivem melhor, Elita.
ResponderExcluirExcelente crônica: em conteúdo, clara e bem escrita. Parabéns!
ResponderExcluirGrato.
ResponderExcluirPara mim, um mantra: ignorância sobre o que não temos domínio, é uma bênção!
ResponderExcluirHá tempos, no tempo em que músicas faziam sentido, um cara de bigode falou:
“… meu delírio é experiência com COISAS REAIS.”